Faz três anos e seis meses que "abandonei" meu blog. Chamava-se "Mundo rosa de Deinha" e o título era uma figura de linguagem. Meu mundo tem muitas cores e é nesta riqueza de tons e possibilidades que venho me reconstruindo nestes últimos tempos. Migrei para o Medium. Voltei a escrever no draft. Se quiseres me seguir, aqui estão os caminhos das pedras. Decidi não tirar do ar tudo o que tinha escrito nestes anos de blog porque não dá para apagar o passado. O que escrevi /vivi, sou eu hoje. Só que ampliada.
Te espero.
Um abraço.
http://projetodraft.com/aprendi-tanto-que-seria-um-crime-nao-compartilhar-eis-as-quatro-teorias-que-me-transformaram/
domingo, 20 de agosto de 2017
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Férias para a alma.
Esta quem me contou foi o Helio, um amigo querido cheio de
histórias. Ele vai no mesmo barbeiro há anos. Destes bem tradicionais. Um senhorzinho
gente boa, que construiu o salão com base nas relações, esta coisa humana que
andou meio fora de moda e que parece, felizmente, dar sinais de que pode voltar. O
Helio foi para o exterior. E viu numa loja uma tesoura linda, grandona, destas
profissionais. Lembrou do Seu Barbosa. Sim, ele, o barbeiro, se chama Barbosa. Trouxe todo
feliz e, no começo do ano, foi ao salão para entregar ao amigo. Eis que o Seu Barbosa não estava. Tinha tirado férias. "Que coisa
boa", pensou. Não lembrava de tê-lo visto sair de férias nestes anos todos. Alguns dias depois, voltou. Tesoura em punho e um
sorrisão na boca. Encontrou o Seu Barbosa. Mais sorrisos. Ainda mais depois de
receber um presente tão personalizado. Aí a curiosidade o fez perguntar
das férias. Pergunta de praxe. Para onde foi, como foi. Nordeste, uma praia,
montanha? Será que teria se aventurado no exterior, já que está
tão fácil nos dias de hoje? Feliz da vida, Seu Barbosa comentou que teve as
férias mais lindas que podia ter tido. Ficou em casa, com a mulher. Ela está
velhinha. Enxerga pouco. Ele trabalha muito. Se veem pouco. Aí ela pediu para
ele ficar com ela. E ele ficou. Fazendo nada, cozinhando, conversando. Ficaram ali, dias a fio, ali, do lado. Hoje, numa reunião com duas assessoras de
imprensa, falávamos sobre a Medicina. Elas comentaram o quanto os médicos que gostam de gente têm chamado a
atenção. Mas médico não devia gostar de pessoas? Não tem um quê de servir, de
ouvir, de acolher, de cuidar intrínseco à profissão? Parece que andamos
esquecidos de coisas bem essenciais. E os que se aventuram e criam coragem de
voltar às raízes têm dado aula. Sempre comentei que as crianças são grandes
professoras. Elas têm um entendimento do que realmente importa. Acho que
vale para os mais velhos. Na mesma sala de espera da clínica médica, hoje, um
senhor de 87 anos contou suas andanças pela vida. Falou da importância de se
fazer o que gosta, de cuidar do corpo desde jovem. Foi um maestro gentil e
amoroso na condução da conversa. Viveu o poder do agora. Estava inteiro, feliz,
compartilhando suas narrativas pessoais. Tinha todo o tempo do mundo. Desconfio que boa parte do que nos
alimenta como seres humanos tem a ver com nos reconhecermos em
histórias como as destes dois senhores. Com relembrarmos o quanto os médicos de família tinham um papel social ao irem nas casas, ao saberem das histórias de quem se entregava em suas mãos. Amo viajar. Amo a tecnologia. Mas sei que que tem horas que menos tecnologia e mais prosa nos transformam.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Uma questão de tempo.
Neste fim de semana eu recebi um
verdadeiro presente do Universo. Na verdade, foram dois. Um
reforçou o outro. Os dois têm a ver com o tempo. Com dar tempo para
que as coisas aconteçam. E com não perder tempo rascunhando a vida,
como já recomendava o grande Mario Quintana.
Faz três meses que eu não escrevo no
blog. Parece que nunca é a hora e quanto mais o tempo passa, menos parece ser o momento de retomar. "Teria que ser algo impactante, relevante", penso, com minha auto-crítica saindo pelos poros. Há três meses eu escolhi ficar mais quietinha, nas palavras,
nas relações, observando mais, agindo menos. Aprendi a não apurar
as coisas e a observar tudo o que semeei ao longo de trinta e poucos
anos para ver o que começaria a brotar. Me tornei até um pouco
estranha pra mim mesma. Menos Pollyana, menos disponível, mais
contemplativa. A jornada do “The artist way”, curso de
criatividade de doze semanas que vivi no fim do ano, certamente,
contribuiu. Um fim de ano que parece que não acabou também. E eu
aos poucos fui espiando tudo o que acontecia, à espera de alguma
pista. Ei-la. Chama-se “About time” ou “Uma questão de tempo”,
um filme que caiu no meu colo na semana passada e que assisti no
sábado à noite. Eu sequer sabia que ele estava no cinema agora, no
fim do ano. Tenho ido pouco ao cinema. Trata-se de um romance
inocente que teria tudo para ser só mais um filme. O fato é que o
enredo me tocou. Não sei quem é o diretor, nem busquei saber do
roteirista. Mas me enxerguei vivendo o dilema do protagonista que,
numa grande brincadeira da vida (um presente que os homens da sua família recebem aos 21 anos), teria o dom de voltar no
tempo e reviver o que quisesse. Assim, quase que um jeito
ilimitado, ele poderia viver o hoje, ousar mais amanhã e ir se
reinventando ao longo dos dias revividos. Até que a
chegada dos filhos muda tudo. E abre, ao mesmo tempo, novas
possibilidades. Alguma semelhança com a vida real? Pois bem, com a
simplicidade de um roteiro bem cotidiano, a narrativa desdobrou
questões bem humanas e trouxe, com a profundidade merecida, a beleza das
relações. Falou de tempo, da falta de tempo, do efêmero e do
quanto pequenos gestos são capazes de mudar o todo. Ainda impactada
pelo filme, recebi outro presente no domingo à noite. A leitura, em
primeira mão, de um texto que se transformará em
uma peça de teatro. Atriz incrível, pessoas incríveis, um texto
rolando e uma noção de tempo infinito justo num domingo à noite,
aquele período que parece sumir do calendário sem deixar nem um
bilhete pelo caminho. Meu fim de domingo durou uma eternidade. E
acabou em segundos. A peça ainda é um desenho. Mas já está
viva no coração da grande atriz que a escolheu. Não posso abrir
mais. Ainda. Mas posso dizer que estes dois textos mudaram minha própria
narrativa pessoal. E casaram como uma luva com meu momento
contemplativo, a ponto de me fazerem ter vontade de voltar a
escrever. Assim, sem rascunhar. Como uma
viagem daquelas que temos vontade de compartilhar com quem a gente
ama, fiquei com vontade de dividir um pedaço da minha experiência
através do filme com uma dezena de pessoas. Como fiquei bem a fim de
levar pela mão amigos queridos à peça, que deve ser parida em
meados de julho. Prometo mandar notícias. Sobre o mundo rosa – e
os outros tons que tenho visto por aí, sobre o que tem me provocado,
sobre a peça, sobre o tempo, sobre a minha desconfiança cada vez
mais forte de que devemos colocar nossas energias no resgate daquilo
que é essencial. E que o essencial é bem simples. Se você tiver
tempo, dedique duas horinhas do seu ao filme. Sozinho ou bem acompanhado, simplesmente vá. Sem mais perguntas, sem planejar muito.
Às vezes as boas surpresas vêm mesmo assim, totalmente despidas de
glamour e expectativas.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Os deuses, os artistas e as crianças em nós.
Ontem à noite eu tive mais uma rodada
reveladora na minha vida. Completamente sem tempo, arranjei tempo e
estou participando de dois grupos de estudo à noite. Num deles,
baseado no livro “The artist way”, tento resgatar minha alma
artista. No outro, o de ontem, junto com algumas corajosas mulheres,
estou estudando a mitologia. Mais especificamente, as deusas e sua
influência nas nossas vidas de simples mortais. E agora, como eu
paro tudo isto? Fiquei muito tempo sem escrever também pela falta de
tempo, mas principalmente pela falta de entendimento de tudo o que
tenho observado por aí. Tem paradigmas ditos consolidados se
dissolvendo, fichas caindo por todos os lados, gente se encontrando e
outros tantos se perdendo de um jeito bem sério. As grandes
instituições, as verdades absolutas, as certezas não são mais
assim, tão certas. E um espaço novo se abre. Como todo novo, dá
frio na barriga, mas traz consigo uma intensa possibilidade de
recomeço. Acompanho, de perto, alguns movimentos de entrega. E vejo
também muita gente grande virar criancinha assustada diante de
tantas possibilidades. Eis que ontem, me aproximando da história de
Afrodite, consegui conectar estes mundos que aparentemente não
deveriam se falar. Há pouco mais de um mês levei num fórum de
executivos a mitologia como forma de contar uma história. Ouvindo a
história de 40 decisores do mundo corporativo, cheguei na alma
pessoal de cada um deles (delas) que, sem cargos ou crachás,
trouxeram em suas falas aquilo que os alimenta como seres humanos que
são. Somos movidos por desafios, por projetos. Mas também pela
beleza, pela estética, pelo cuidado. Mais uma vez, não é "ou". É
“e”. Somos Afrodites (ou Vênus) e Marte (ou Aries) e é a soma
destas possibilidades dançando em nós que nos completa e preenche
um grande vazio existencial. Assim como me descubro em cada
encontro um pouco Artemis (livre, selvagem), sei da importância de
chamar uma Atena (intelectual, focada) ou Deméter (amorosa, mãezona)
em diferentes momentos da minha vida. A consciência de que todas
elas coexistem em mim (em nós) é o que liberta e nos reconecta com
nossas essências. O artista é exatamente isto. Tenho convicção de
que nascemos artistas. E o perdemos pelo caminho. Que temos
histórias, sonhos e jornadas muito próximas e que ao ouvirmos a
história do outro, nos escutamos. Ontem, na nossa roda de mulheres,
mais parecíamos menininhas, crianças atentas com olhos enormes e
brilhantes escutando as nossas próprias histórias refletidas
através dos mitos. Dia destes, recebi um vídeo do filósofo Clovis
de Barros no Jô. Já virou meio spam. Todo mundo fala sobre ele. Me
identifiquei em muitas das falas. No nosso papel no mundo de
permitirmos que as plantas das pessoas desabrochem. E no conceito bem
simples de que felicidade é um momento que não queremos que acabe.
Ontem o tempo voou. Desabrochei mais um tanto. E tenho desabrochado
através das histórias que escuto e vivo. E por meio de muitas e
generosas pessoas que dão mais vida e sentido à minha vida. Como
comentei com as meninas, vivo o momento mais exaustivo de todos os
tempos. E o mais intenso e feliz.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Estar-se preso por vontade.
Nunca
a frase do Legião Urbana fez tanto sentido pra mim. Inspirada no
original de Camões, "é querer estar preso por vontade", o
contexto apareceu na entrelinha de uma conversa com um ex-cliente, agora amigo. Ele acabou de se aposentar. E assistiu à
minha palestra no TEDx Laçador. Ficou mexido. Me escreveu. Me
contou coisas da vida, na sabedoria de quem viveu muito e segue
aprendendo. Entre muitas reflexões, falou que esteve recentemente
com ex-colegas do tempo do colégio. Todos na mesma fase da vida, se
reinventando depois de longas jornadas corporativas. Segundo ele, o
grande dilema desta etapa não está no adaptar-se às novas rotinas.
O medo não é o de sentir falta do trabalho, mas o de passar por
privação financeira. "Quanto mais cedo aprendermos que é
possível viver com menos, mais coragem vamos ter para fazer
aquilo que nos dá alegria de viver", contou. Tenho
exercitado mentalmente este conceito de liberdade. E ele é bem maior
que pegar uma mochila a qualquer momento e sair pelo mundo. Tem a ver
com a sensação de ser livre para recomeçar e com imaginar isto
possível todo dia de manhã, ainda que não o façamos. Com estar em
projetos de clientes porque eles também alimentam nossas almas, e
não somente porque precisamos deles para pagar as contas. Com
conviver com pessoas que tiram o melhor de nós e com escolher não
mais estar com outras tantas, que não acrescentam - e ainda
subtraem. Liberdade é um sentimento. Não necessariamente uma ação.
Ainda pensando a respeito das vidas corporativas, enxergo grandes
escravos de luxo por aí, pessoas que não podem sequer questionarem
as próprias carreiras porque jamais conseguirão ganhar nem perto do
que recebem no lugar atual. E têm contas proporcionais à
responsabilidade. Outros, por bem menos, tornam-se também escravos
de carnês.
Não pagar lhes tira a dignidade. Crédito é o seu cartão de
visitas. O dinheiro, meus caros, aprisiona. Nos dois extremos, com
igual crueldade. Mas pode também ser libertador. Falei na mesma
palestra do TEDx sobre o lucro admirável, aquele de empresas cuja
sociedade aplaude quando acontece. Usei como exemplo aquele amigo bacana que vibramos
quando dá certo na vida porque sabemos que fará bom uso do que produzir. Vai viajar, fazer cursos. Vai tornar-se uma pessoa
ainda mais bacana - e ainda compartilhar tudo por aí. Com
dinheiro na mão, o fluxo flui. Ninguém vai para o inferno porque é
capaz de gerar riqueza. Tem a ver com merecimento, com sermos
reconhecidos porque somos capazes de produzir coisas boas. Falando
ainda musicalmente, acho que o Frejat também resumiu muito bem esta história toda: "Eu
desejo que você ganhe dinheiro pois é preciso viver também. E
que você diga a ele pelo menos uma vez quem é mesmo o dono de
quem."
Pra quem ainda não viu, segue o link da minha palestra no TEDx Laçador:
http://www.youtube.com/watch?v=3hdznmYhIzE&feature=youtu.be
Pra quem ainda não viu, segue o link da minha palestra no TEDx Laçador:
http://www.youtube.com/watch?v=3hdznmYhIzE&feature=youtu.be
sábado, 17 de agosto de 2013
A dor da separação.
Carolina, 9 meses, segue me ensinando.
Desta vez, minha grande professora me deu uma aula sobre a dor da
separação. Tinha lido já a história de que o bebê humano vive 9
meses dentro da barriga e 9 meses fora. Somente então, está próximo
de outro mamífero qualquer recém-nascido. É como se a saída da
barriga fosse só parte do processo da gestação. Totalmente
dependente, quase um apêndice da mãe, o bebê termina de ser
formado fora, mas bem dentro. Pois bem, eis que a minha pequena
começou a apresentar uns sintomas inquietos nas últimas semanas.
Passou a acordar assustada à noite e a choramingar mais a minha
presença. Acabei chegando a alguns artigos que falam na tal “dor
da separação”. A grosso modo, a dor acontece mais ou menos
quando o bebê descobre que ele e a mãe não são a mesma coisa.
Passa a ter medo dela desaparecer. A fusão, antes tão intensa,
começa a se desfazer e ele, o bebê, passa a descobrir que existe
por si, que é um ser humano integral, e não parte da mãe. Isto
dói. Dá medo. Mas faz crescer. É, portanto, uma fase fundamental.
Para a mãe, que tem que estar perto, é preciso passar segurança,
tranquilidade. Para os demais que convivem com a criança, também.
Não dá mais para voltar para o útero. O próximo estágio é ir em
frente, caminhar, descobrir o mundo. Dói mais pra mãe, às vezes.
Esta semana, não por coincidência, estive com algumas mulheres fortes e corajosas. Falamos, por tabela, da tal dor da separação. Uma delas largou a carreira bem sucedida e, aos 40, foi viver um amor de verdade nos Estados Unidos. Largou a estabilidade, a casa bem montada, um emprego de fazer inveja às amigas e foi andar de bicicleta numa cidade pequena onde, claro, empreende com o novo marido. Casou e está recomeçando a viver. Outra, também largou a carreira corporativa e, com filhos pequenos, desenhou um novo negócio que vai colocar em prática a partir do ano que vem. Tudo a ver com ela. O olho brilha quando conta detalhes do projeto. Uma terceira, que conheci ontem à noite, do nada, no aniversário de uma grande amiga, estava em São Paulo para um final de semana relâmpago com o namorado, também americano, que conheceu num congresso meses atrás. Ela do Paraná, terapeuta. Ele psiquiatra. Ela, filhos pequenos. Ele, filhos criados. Ela não falava inglês. Estão aprendendo a se comunicar. E o inglês dela flui que é uma beleza perto dele. Não há planos de futuro. Não há perspectivas. Mas estão vivendo a história em encontros pelo mundo, quando dá. Step by step.
Não são histórias de amor. São, no meu ponto de vista, histórias de pessoas que têm a coragem de viver a dor da ruptura. Que se expuseram para o novo e se libertaram de amarras. Aos 9 meses, passamos pela primeira de muitas destas quebras. A ida para o colégio, a saída da casa dos pais (no meu caso, aos 17 anos), a mudança de cidade, um novo emprego, um projeto que sai do papel. E não precisa mudar de país ou largar o emprego para viver estas quebras. Às vezes, as mudanças são sutis. Ainda assim, intensas e transformadoras. Todas elas carregam em suas essências as estrias do crescimento, o frio na barriga do desconhecido. Mas são graças a elas que temos a infinita capacidade de nos reinventarmos. A descoberta da Carolina de que ela é só é também uma feliz oportunidade de se perceber única. E cheia de possibilidades. Quando descobrimos que somos, de fato, sozinhos, isto nos liberta. Estamos com as pessoas – pelo tempo que for – porque nos enxergamos através delas. São todas bem-vindas. Mas a trajetória é nossa. O dia que descobrirmos que somos nós os verdadeiros amores das nossas vidas, a dor pode doer menos. Ou, se doer, ao menos é uma dor que abre novos caminhos. E não aquela que nos aprisiona como crianças amedrontadas embaixo da cama.
Esta semana, não por coincidência, estive com algumas mulheres fortes e corajosas. Falamos, por tabela, da tal dor da separação. Uma delas largou a carreira bem sucedida e, aos 40, foi viver um amor de verdade nos Estados Unidos. Largou a estabilidade, a casa bem montada, um emprego de fazer inveja às amigas e foi andar de bicicleta numa cidade pequena onde, claro, empreende com o novo marido. Casou e está recomeçando a viver. Outra, também largou a carreira corporativa e, com filhos pequenos, desenhou um novo negócio que vai colocar em prática a partir do ano que vem. Tudo a ver com ela. O olho brilha quando conta detalhes do projeto. Uma terceira, que conheci ontem à noite, do nada, no aniversário de uma grande amiga, estava em São Paulo para um final de semana relâmpago com o namorado, também americano, que conheceu num congresso meses atrás. Ela do Paraná, terapeuta. Ele psiquiatra. Ela, filhos pequenos. Ele, filhos criados. Ela não falava inglês. Estão aprendendo a se comunicar. E o inglês dela flui que é uma beleza perto dele. Não há planos de futuro. Não há perspectivas. Mas estão vivendo a história em encontros pelo mundo, quando dá. Step by step.
Não são histórias de amor. São, no meu ponto de vista, histórias de pessoas que têm a coragem de viver a dor da ruptura. Que se expuseram para o novo e se libertaram de amarras. Aos 9 meses, passamos pela primeira de muitas destas quebras. A ida para o colégio, a saída da casa dos pais (no meu caso, aos 17 anos), a mudança de cidade, um novo emprego, um projeto que sai do papel. E não precisa mudar de país ou largar o emprego para viver estas quebras. Às vezes, as mudanças são sutis. Ainda assim, intensas e transformadoras. Todas elas carregam em suas essências as estrias do crescimento, o frio na barriga do desconhecido. Mas são graças a elas que temos a infinita capacidade de nos reinventarmos. A descoberta da Carolina de que ela é só é também uma feliz oportunidade de se perceber única. E cheia de possibilidades. Quando descobrimos que somos, de fato, sozinhos, isto nos liberta. Estamos com as pessoas – pelo tempo que for – porque nos enxergamos através delas. São todas bem-vindas. Mas a trajetória é nossa. O dia que descobrirmos que somos nós os verdadeiros amores das nossas vidas, a dor pode doer menos. Ou, se doer, ao menos é uma dor que abre novos caminhos. E não aquela que nos aprisiona como crianças amedrontadas embaixo da cama.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Entusiasmo.
Tem um monte de gente que eu curto, admiro, gosto de ler, ouvir. O Eduardo Galeano é um deles. Descobri um videozinho recente, direto da Praça Catalunya, na Espanha, onde ele fala, entre outras coisas, sobre o conceito de entusiasmo. Do grego, tem a ver com "ter os deuses dentro". Já comentei por aqui de um indiano que me contou que Deus vive dentro da gente. E já falei sobre "voltar a beber na própria fonte". Tudo a mesma coisa. Tudo faz muito sentido pra mim. Ora, se os deuses vivem dentro da gente, não dá pra tentar enfiá-los "goela abaixo" nos corpos de outras pessoas. Eles já estão lá, adormecidos. Cabe a nós, se quisermos, tentarmos despertá-los. Já nascemos empoderados. Temos todas as ferramentas. Mas a escolha de usá-las ou não é somente nossa.
Nunca vi tanta gente desanimada, reclamando. Também nunca encontrei tanta gente "entusiasmada" por aí. Gente que tem tomado as rédeas da própria vida e recriado suas histórias. Que tem construído legados. Este é outro conceito que eu gosto muito. E que aprendi com o Nuno, um português amigo também já citado em posts anteriores. Segundo o que ele me contou, morremos quando deixamos de ser lembrados. Não quando nosso corpo vai embora. Quando construímos algo tão bacana em vida, que somos citados de forma recorrente em conversas, mesmo quando já não estivermos por aqui.
Nesta semana encontrei uma turma "entusiasmada" de jovens, num projeto lindo de uma empresa de tecnologia. Engenheiros, ex-bancários, todos podiam estar curtindo uma aposentadoria generosa. Mas decidiram empreender. Não contentes com isto, têm criado encontros inovadores dentro da empresa. Fui chamada como "inspiradora" de um deles. Tem a ver com novos modelos de educação e com a descoberta de novos talentos. Colocaram 9 meninos (e uma menina), de 12 a 18 anos, classes sociais diferentes, vivências diversas, numa sala por algumas semanas (uma manhã por semana) para aprenderem alguns conteúdos e para pensarem nos seus futuros. Mostraram o mercado, contaram o bastidor de uma empresa de verdade e os ajudaram a enxergar o futuro. Quem deu as aulas? Os funcionários. Quem ajudou no fechamento? Euzinha. Uma delícia. Fiz com eles uma dinâmica de resgatar, num texto escrito a mão (eles não têm o hábito de escrever), cinco pessoas que foram fundamentais para chegarem ali naquele momento. Criaturas que foram definitivas na construção das suas personalidades. Apareceram, além de mães, pais e amigos, o Bob Dylan, o Steve Jobs, um tio amoroso que sempre jogou videogame com um deles e até a figura do game Pacman. Fiz o exercício mentalmente enquanto eles escreviam. E me revi crescendo e formando quem eu sou. Apareceu, claro, o meu pai, sempre uma referência intelectual pra mim, que me contou que eu escrevia bem, que carregava minhas poesias recortadas na carteira. Nunca morreu na minha memória. Ao mesmo tempo, pegando carona com o Nuno, me pego pensando em como serei lembrada daqui a alguns anos, quando não estiver por aqui. Serei, afinal, lembrada? Por quem? Em que contexto? Nascer e morrer não são escolhas que possamos controlar. Mas com 8 ou 80, temos sempre pela frente todas as possibilidades. Se depender dos meus deuses internos, animados como são, tenho muito trabalho pela frente. Tomara deixar na memória de alguns um pedacinho deste mundo novo que vem aí.
O link pro vídeo do Galeano que comentei. Conta que estamos parindo algo novo". "Hay otro mundo que nos espera", disse :) http://www.youtube.com/watch?v=j2IYgytRs90
Nunca vi tanta gente desanimada, reclamando. Também nunca encontrei tanta gente "entusiasmada" por aí. Gente que tem tomado as rédeas da própria vida e recriado suas histórias. Que tem construído legados. Este é outro conceito que eu gosto muito. E que aprendi com o Nuno, um português amigo também já citado em posts anteriores. Segundo o que ele me contou, morremos quando deixamos de ser lembrados. Não quando nosso corpo vai embora. Quando construímos algo tão bacana em vida, que somos citados de forma recorrente em conversas, mesmo quando já não estivermos por aqui.
Nesta semana encontrei uma turma "entusiasmada" de jovens, num projeto lindo de uma empresa de tecnologia. Engenheiros, ex-bancários, todos podiam estar curtindo uma aposentadoria generosa. Mas decidiram empreender. Não contentes com isto, têm criado encontros inovadores dentro da empresa. Fui chamada como "inspiradora" de um deles. Tem a ver com novos modelos de educação e com a descoberta de novos talentos. Colocaram 9 meninos (e uma menina), de 12 a 18 anos, classes sociais diferentes, vivências diversas, numa sala por algumas semanas (uma manhã por semana) para aprenderem alguns conteúdos e para pensarem nos seus futuros. Mostraram o mercado, contaram o bastidor de uma empresa de verdade e os ajudaram a enxergar o futuro. Quem deu as aulas? Os funcionários. Quem ajudou no fechamento? Euzinha. Uma delícia. Fiz com eles uma dinâmica de resgatar, num texto escrito a mão (eles não têm o hábito de escrever), cinco pessoas que foram fundamentais para chegarem ali naquele momento. Criaturas que foram definitivas na construção das suas personalidades. Apareceram, além de mães, pais e amigos, o Bob Dylan, o Steve Jobs, um tio amoroso que sempre jogou videogame com um deles e até a figura do game Pacman. Fiz o exercício mentalmente enquanto eles escreviam. E me revi crescendo e formando quem eu sou. Apareceu, claro, o meu pai, sempre uma referência intelectual pra mim, que me contou que eu escrevia bem, que carregava minhas poesias recortadas na carteira. Nunca morreu na minha memória. Ao mesmo tempo, pegando carona com o Nuno, me pego pensando em como serei lembrada daqui a alguns anos, quando não estiver por aqui. Serei, afinal, lembrada? Por quem? Em que contexto? Nascer e morrer não são escolhas que possamos controlar. Mas com 8 ou 80, temos sempre pela frente todas as possibilidades. Se depender dos meus deuses internos, animados como são, tenho muito trabalho pela frente. Tomara deixar na memória de alguns um pedacinho deste mundo novo que vem aí.
O link pro vídeo do Galeano que comentei. Conta que estamos parindo algo novo". "Hay otro mundo que nos espera", disse :) http://www.youtube.com/watch?v=j2IYgytRs90
segunda-feira, 29 de julho de 2013
Essencial.
domingo, 21 de julho de 2013
Amigo dos sonhos.
Ontem eu recebi uma série de mensagens bem lindas sobre o dia do amigo. E fiquei pensando, aqui comigo, no verdadeiro significado destas pessoas na vida da gente. Família a gente não escolhe. Ou melhor, escolhe, em outro plano. E estamos aqui para aprender e para crescer com ela. Mas os amigos, estes são, sim, fruto de nossas escolhas bem terrenas. Assim, pé no chão e com uma boa dose de sexto sentido no pacote. Ontem, justo no dia do amigo, eu tive uma prova de amizade que não tem preço. Fui acolhida, sem julgamentos, por uma grande amiga que apenas me cuidou e me ouviu. Me deixou dormir e esteve ali, inteira, caso eu precisasse. Uma criatura que não mede palavras para me "trazer de volta à realidade" quando eu saio demais da caixa e que sabe me dar empurrões quando estou a um passo de uma grande decisão. Não passa a mão na cabeça, mas sabe dar colo como ninguém. Pra mim, pra minha filha e pro até pro maridão. Fico pensando nos nossos papeis como pais, como amigos. E no quanto dar a real faz parte da construção de homens e mulheres íntegros. Dizer sim sempre, elogiar sempre e achar tudo lindo não é tão lindo assim. Mas qual a medida para mostrar o outro lado sem puxar para baixo, sem desestimular ou bloquear? No curso que eu fiz na semana passada - e que comentei no blog, o "The artist way", falamos sobre isto. Sobre o quão valiosos são os sonhos das pessoas. E de que não temos o direito de julgá-los. Acho que amigo, em essência, tem a ver com isto. Com sonhar com a gente, fazer parte do sonho, ajudar a construir o sonho, vibrar com ele, festejar, compartilhar. E se um dia, por algum motivo, algum deles virar pesadelo, ele vai estar ali do lado pra nos segurar.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
The artist way
Ontem eu reencontrei minha alma artista num delicioso encontro onde corajosos "seres humanos normais" se propuseram a se entregar. Foi mediado por uma menina de nome Flor, cujo olhar brilha ao organizar este tipo de encontro. Alguns bons amigos, curiosos, toparam e também foram. O tempo voou e, quando vimos, eram 23h. A proposta do encontro foi, inspirados no livro "The artist way", experimentarmos algumas situações bem simples de reconexão com nossa alma criativa, sem aquelas vozes críticas tão duras, sem medos e com grande alegria. E assim o foi. Éramos uns 15 e, ao final, foi como se fôssemos centenas, tamanha foi a lembrança que tivemos de pessoas que fizeram - e ainda fazem diferença nas nossas vidas. Aqueles amigos de infância que nos ajudaram a decidir a profissão de hoje, aqueles não tão amigos, que nos bloquearam naquilo que suspeitávamos sermos bons, a família, os colegas e ainda os desconhecidos ali presentes, que trouxeram dicas assim, na hora, e acabaram nos ajudando a desenhar novas rotinas para nossas vidas. A proposta do livro é bem simples: durante 12 semanas o leitor deve se propor a fazer uma atividade diferente por dia para, de forma bem leve, libertar o artista que vive aprisionado nos nossos julgamentos internos. Surgiram momentos únicos e difíceis de descrever. E insights bacanas. Dentre eles, a sutil diferença entre o medo e a curiosidade, a certeza de que todos somos todos gênios e a percepção de que se formos esperar o dinheiro que gostaríamos, talvez não façamos as coisas que sonhamos. "A head full of fears has no space for dreams", dizia um cartaz. Não precisaria um encontro como este para que cada um dos presentes pudesse, com uma boa dose de disciplina, seguir os passos do livro e, ao final de 12 semanas, se redescobrir. Mas, como uma boa defensora das conversas circulares, não tenho dúvida de que aquelas pessoas tinham que estar ali e que o círculo enriqueceu muito as pequenas grandes vivências de cada um dos presentes. Não teríamos conhecido um casal aventureiro que recém chegou de volta ao Brasil, sedento por um boteco com amigos, depois de dois anos de volta ao mundo em busca de sentido pras suas vidas. Não teríamos encontrado meninas inquietas que recém largaram os empregos, nem as que, ainda nos seus, estão a um passo de pedirem pra sair. Não teríamos torcido para a máquina fotográfica de uma moça chamada Diva a acompanhasse com calma nas próximas corridas, em caminhadas relaxadas depois das provas. Nem teríamos descoberto que um engenheiro focado em TI é tão hábil para fazer um origami de papel em forma de pássaro. Não teríamos, juntos, criado mil e um usos para o rolo do papel higiênico, nem brincado com massinha de modelar nem aprendido a colocar numa cestinha, toda sexta-feira todos os grandes feitos da semana. Beber da própria fonte, como disse o querido filósofo francês Jean Bartoli, é fundamental. Mas bebericar em fontes externas é também bem rico e renovador. Um brinde às almas artistas!
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Assim, um propósito.
Há umas duas semanas eu estive com o
Marcelo Cardoso que, entre um assunto e outro, falou da importância
de se ter um propósito na vida. Disse ele: “se você não tem um
propósito de vida, seu propósito pode ser o de encontrar o seu
propósito de vida”. Tem um outro ditado bem popular que fala mais ou menos a mesma coisa. "Se você não sabe para onde vai, qualquer caminho serve." Tenho acompanhado muita gente sem propósito
por aí. Gente que acorda de manhã e não tem a menor ideia do
motivo pelo qual está por aqui. Não que seja fácil. Quem dera o
fosse. Mas ter uma mínima ideia do que te move parece, ao menos,
facilitar um pouco algumas decisões bem simples. Falava com um amigo
hoje que me relembrou o quanto o tal propósito ajuda a clarear as
nossas ações diárias. Para um estrategista de guerra, por exemplo,
saber que o objetivo a ser alcançado era dominar tal território num
tempo X dava a ele uma relativa tranquilidade de acordar a cada dia
muito focado em conseguir mais um passo daquela jornada, ainda que
longa. Mesmo que tivesse que esperar por meses no frio, parado, sabia
que fazia parte de um plano maior. Guerras ou conquistas
territorialistas à parte, este olhar para dentro e encontrar um
rumo, ajuda, e muito, a termos coragem de sair da cama, mesmo
naquelas manhãs frias de inverno. Estou bem convencida de que esta
vontade que vem de dentro, este drive que move algumas pessoas, não
tem a ver com perfil, idade, classe social. Tem a ver com energia
vital vibrante. Parece, inclusive, que aqueles que enfrentam muitos
obstáculos vêm “de fábrica” com uma dose extra de vontade.
Choramingam de menos e realizam muito mais. No dia em que conduzimos
a oficina de tricô com redação estávamos todos meio apreensivos
com nossa capacidade de tricotar. Eu não o fazia há pelo menos 30
anos. E muitas pessoas nunca haviam tocado em agulhas. Eis que uma
menina linda e sorridente deu uma verdadeira aula a todos nós e foi
quem puxou a turma a começar o tal treino. Detalhe: ela não tem uma
das mãos. E assim, do jeito que dava, contou um truque que aprendera
para dar o primeiro laço e iniciar o processo de colocar a linha na
tal agulha. Saiu sorrido e tricotando e ainda ajudou todo mundo a
derrotar seus medos. Mimimi de menos e propósito de vida demais.
Hoje este mesmo amigo que falou comigo sobre os estrategistas, me
apresentou a um vídeo que acabou de sair do forno. Um clipe que o
pessoal do Fresno fez com atletas com grandes limitações. Físicas,
e não emocionais. Chama-se "Maior que as muralhas." Com uma garra de fazer inveja, eles souberam se
reinventar e, assim, dia após dia, se superaram e construíram
histórias incríveis. Preferiram enxergar a metade cheia do copo. O
esporte tem disto. Um objetivo a ser alcançado. Melhor ainda quando
tem a ver com superar a si mesmo, e não necessariamente com “vencer
alguém”. Vencer nossos inimigos internos é sempre mais
desafiador. Ao que parece, o trabalho do grupo tem um quê disto. De
apresentar estas e outras histórias a jovens meio “sem propósito”.
Espero que estas e outras iniciativas também cutuquem aqueles que
não são mais assim, tão jovens. Que, além dos de 20, os de 60
possam se reinventar. E se ainda não encontraram seu propósito, que
usem toda sua bagagem acumulada como atalho. Para que possam acordar
todo dia de manhã com a energia transformadora dos de 20.
* Ah. O vídeo que comentei sobre atletas que se superaram (foi ao ar ontem): http://www.youtube.com/watch?v=eAaNEMJeC7U
** e o link da já consagrada fala do Marcelo Cardoso no TEDx Laçador, no ano passado. Também fala sobre propósito :) http://www.youtube.com./watch?v=yXKZjbqq_zU
* Ah. O vídeo que comentei sobre atletas que se superaram (foi ao ar ontem): http://www.youtube.com/watch?v=eAaNEMJeC7U
** e o link da já consagrada fala do Marcelo Cardoso no TEDx Laçador, no ano passado. Também fala sobre propósito :) http://www.youtube.com./watch?v=yXKZjbqq_zU
terça-feira, 2 de julho de 2013
Assim, high touch.
"Conversando a gente se entende". Esta frase me
acompanha há tempos e tem feito cada vez mais sentido. Não só pela
delícia que é um "dedo de prosa", como dizem meus amigos mineiros,
mas porque é nas conversas que nos reencontramos conosco. Como quem dá aula e
aprende cada vez mais sobre o assunto, quando colocamos nossas ideias pra fora
estamos nos enxergando espelhados no outro. Falar sozinho também
serviria, não fosse a importância do eco daquilo que sai da gente. Em tempos de
redes sociais, nunca me senti tão próxima das pessoas.
Hoje minha professora de inglês trouxe para nosso bate-papo -
com café - um texto muito bacana sobre as redes sociais e seu poder de
transformação. O interessante do texto é que ele mostra, com bons argumentos,
que o tipo de interação que acontece hoje nos Facebooks da vida nada mais são
do que os encontros que sempre aconteceram em cafés. Há tempos pensadores,
artistas e criativos costumam promover encontros em lugares públicos para
debaterem, trocarem ideias e, quem sabe, "até tomarem um café". As
redes sociais são os próprios cafés, só que virtuais. O mesmo tipo de interação
que acontece on line continua acontecendo off line. E é aí que mora a beleza da
coisa. Não é uma coisa ou outra. É a soma das duas. O José Carlos Teixeira
Moreira costuma falar em high tech e high touch (tecnológico ou fofinho, com toque). Pode ser real e virtual,
presencial e à distância, o fato é que por mais que as redes articulem ideias,
elas só acontecem de fato e "tomam corpo" quando as pessoas se
encontram, se enxergam, se tocam, se escutam ressoando nas vozes dos outros. E
não adianta fazer de conta que as redes não existem, proibir acesso nas
empresas. Se não podemos derrotá-los, nos juntemos. Só que nas redes, as
identidades que aparecem têm filtros e máscaras que muitas vezes acabam caindo
nas interações de verdade. São perfeitas para encontrar pessoas distantes,
espiar a ideia de uma ou outra criatura e até para substituir os noticiários
que, afinal, são mais espontâneos e instantâneos nos teclados
"facebookianos". Mas há um limite. De caracteres, de tempo, de espaço
físico até. Espaço este que se dilui em conversas sem pressa, regadas a cafés,
chás e espaços aconchegantes de interação. Vivemos em ciclos e utilizamos a tecnologia
como ferramenta para expressar o nosso tempo, felizmente. Mas como seres
humanos que somos, precisamos de contato, de olho no olho. Daqui a cem anos,
espero, nossos netos também se sentirão assim, aconchegados e reconhecidos
quando estiverem reunidos e forem ouvidos, em conversas ao pé do fogo, em rodas
de amigos, cafés ou em espaços quaisquer onde possam exercer sua condição
atemporal de serem pessoas únicas em essência.
* Ah, o texto que comentei:
sábado, 29 de junho de 2013
Revoluções internas.
Estou há mais de duas semanas sem
escrever no blog. Não por falta de vontade ou de assunto. Mas
por respeito ao silêncio. Grandes revoluções aconteceram na minha
vida neste período, mas outras tantas, infinitamente maiores, têm
acontecido com a Humanidade, especialmente no Brasil, e eu ainda não
tinha encontrado o fio da meada que as une. Pois bem, ontem no fim da
tarde, em mais um café com conversa, alguns fios fizeram sentido e
eis que estou aqui para falar sobre eles.
No dia seguinte ao meu último post, fiz uma oficina de redação com tricô com duas amigas queridas e corajosas, a Tania e a Florentine. Foi no dia 13, dia em que uma das maiores manifestações se articulava. Alguns corajosos aceitaram nosso convite e vieram tramar conosco histórias de vida. Até fizeram tricô, mas, entre um e outro pedaço de lã, surgiram também pedaços textuais que foram verdadeiros resgates. Provocamos a eles – e a nós, a se apresentarem com cinco anos de idade, trazendo elementos que fomos tecendo ao longo do encontro. Saíram textos lindos de pessoas que não necessariamente sabiam escrever. Intenso e de uma entrega ímpar. Dias depois, em Viamão, RS, tive a felicidade de falar no TEDx Laçador sobre “Desconstrução”. Na outra semana, estive com alguns outros tantos “desconstrutores”, num curso que tinha tudo para ser business e deu aula de reconexão e leitura interna.
No dia seguinte ao meu último post, fiz uma oficina de redação com tricô com duas amigas queridas e corajosas, a Tania e a Florentine. Foi no dia 13, dia em que uma das maiores manifestações se articulava. Alguns corajosos aceitaram nosso convite e vieram tramar conosco histórias de vida. Até fizeram tricô, mas, entre um e outro pedaço de lã, surgiram também pedaços textuais que foram verdadeiros resgates. Provocamos a eles – e a nós, a se apresentarem com cinco anos de idade, trazendo elementos que fomos tecendo ao longo do encontro. Saíram textos lindos de pessoas que não necessariamente sabiam escrever. Intenso e de uma entrega ímpar. Dias depois, em Viamão, RS, tive a felicidade de falar no TEDx Laçador sobre “Desconstrução”. Na outra semana, estive com alguns outros tantos “desconstrutores”, num curso que tinha tudo para ser business e deu aula de reconexão e leitura interna.
Ontem, dia 28, fez nove meses que
reunimos 42 mentes inquietas, num encontro totalmente às cegas onde
falamos sobre o que nos move e o que vinha nos incomodando. Incômodos
que gritavam e não encontravam eco. O Jean Bartoli, um dos filósofos
que eu amo na vida, falou, neste curso da semana passada, sobre a dor
que estamos vivendo com estas manifestações. Que ela pode ser a dor
do parto ou a dor da hora final. Parece que chegou a hora de darmos à
luz a algo que vinha nos incomodando.
Fazendo um daqueles exercícios do “e
se”, fico pensando “e se os atos de vandalismo não estivessem
desviando nossa atenção”, o que sobraria?
Um dos pedaços da minha fala no TEDx
teve a ver com um vazio existencial que tenho assistido nas pessoas.
Dos presidentes de empresas, que “chegaram lá”, aos jovens
inquietos de 20 e poucos, que não têm a pretensão de chegar a este
lugar que seus pais estão, o que os une é o mesmo vazio. De
propósito, de sentido pra vida. Gastamos nossos tempos correndo para
pagar contas e desencontramos o fio da meada das nossas próprias
existências. Felizmente, ainda que com dor, recomeçamos a jornada.
E estamos nos reencontrando. O Bartoli traçou toda sua fala em
“voltar a beber na própria fonte”. O Igor Oliveira, amigo querido que não
é filósofo, mas, felizmente, me faz parar para pensar toda hora,
falou em revoluções “gandhianas”. “Seja gandhiano ou vença”,
disse ele. Não acho que exista uma guerra. Muito menos que ela seja
contra outro alguém. O maior de todos os desafios está em parar de
apontar o dedo para fora e começar a olhar para dentro. A resgatar,
um a um, os fios que dão sentido à nossa existência. Do reencontro
com este grande e lindo tecido – que é único em cada um de nós,
é que surgem as verdadeiras grandes revoluções.
* quem quiser conhecer um pouquinho mais do Bartoli, espie o blog dele :)
http://www.jeanbartoli.com.br/
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Assim, bem real.
Eu quero um amor bem real. De carne, osso e sorriso no rosto. Que me aceite por inteiro, sem maquiagem, com TPM, com dúvidas e medos existenciais. Quero um amor que não me julgue, que me apoie, que me coloque pra cima e me faça sentir a mulher mais linda do mundo. Quero um amor que goste de viajar. Não aquelas viagens perfeitas e programadas. Mas aquelas que a gente vira a rua quando dá vontade só pra ver o que tem no outro canto da cidade. Quero um amor que acorde alegre. Calado pode. Mal humorado, não. Que tenha um propósito de vida e que vá atrás dele com paixão. Quero um amor contagiante. Que chegue e ilumine o ambiente. Uma criatura imperfeita mas crítica para rever alguns conceitos. Alguém que me ouça, que aceite deixar o iphone carregando no banheiro pra não cair em tentação de dar uma espiadinha no meio da noite. Quero um amor bem simples, sem frescuras. Que entenda que eu gosto de lugares mimosos e que, mesmo sem entender bem disto, se esforce pra me levar num ou outro sempre que dá. Quero um amor divertido, meio palhaço, dançarino, contador de causos. Um amor que queira construir uma família. Que, aliás, ache lindo construir uma família. Quero um amor bem quentinho, que encoste o pé em mim no meio da noite, que se enrosque em mim e que não se importe de ter as cobertas roubadas, mesmo nas noites frias. Um amor inventor, meio professor pardal, que não se aperte, não se deprima, que não perca a esportiva. Um amor escabelado, tarado, intenso, mas que também curta ficar em casa o domingo inteiro assistindo filme com pipoca. Que me busque quando eu passar da conta com as amigas - e que leve uma garrafa de Coca embaixo do braço na operação de resgate. Quero um amor que me dê flores. Rosas vermelhas. E que chegue com elas embrulhadas embaixo do braço no meio de uma semana sem data ou motivo para comemorar. Aliás, quero um amor que esqueça as datas óbvias. Mas que me lembre o quanto sou tudo de bom assim, do nada. Que me leve pão com mel na cama de um jeitão meio tosco. Que me deixe dormir mais um pouco. Quero um amor sem fórmulas, sem cavalo branco, sem caber em caixas, sem agradar ninguém, que não a nós dois. Quero um amor bem amado. E que ele chegue na hora certa. E quando a hora chegar, eu vou saber. Opa. Chegou :)
terça-feira, 11 de junho de 2013
Diga-me como respiras.
Hoje eu participei de uma oficina que tinha tudo pra dar errado e deu muito certo. Aconteceu onde não deveria ter acontecido, tinha menos gente que o esperado (o temporal não ajudou) e foi muito na medida. Estavam exatamente as pessoas que tinham que estar e acabou ganhando ares de protótipo de uma coisa bem bacana que tem tudo para dar bons frutos logo ali na frente. Ah. Foi uma oficina de reconexão. Isto mesmo. Reaprender a se conectar consigo para, então, se conectar com o todo. Ares de yoga, temática musical inesperada e pequenos grandes aprendizados em formas de lembretes, simples e fundamentais. Um dia eu conto mais detalhes :)
No meio do encontro, uma história chegou para ilustrar a importância da consciência nas coisas que fazemos. Já tinha escutado, não sei de quem, mas adorei reouvi-la e acho que faz muito sentido. Não importa se foram os hindus que contaram ou se trata-se de uma lenda de um monge budista. Sei que conta que cada criatura que chega na Terra tem um número X de respirações que nasce com ela. Este número não pode ser mexido. É seu. Tão pessoal quanto uma impressão digital. Não temos o menor poder de transformar este número. Mas podemos medir sua intensidade. Posso escolher respirar às pressas, engolindo o ar enquanto tento conversar e me desdobrar em malabarismos ou posso respirar as mesmas respiradas calma e lentamente, sorvendo o ar com requintes de um sommelier. Não está super na moda degustar vinhos, chás, chocolates? Por que não degustar o ar? Além de diferente e divertido, dá até pra ganhar uns anos. Diga-me como respiras que te digo quanto tempo viverás.
No meio do encontro, uma história chegou para ilustrar a importância da consciência nas coisas que fazemos. Já tinha escutado, não sei de quem, mas adorei reouvi-la e acho que faz muito sentido. Não importa se foram os hindus que contaram ou se trata-se de uma lenda de um monge budista. Sei que conta que cada criatura que chega na Terra tem um número X de respirações que nasce com ela. Este número não pode ser mexido. É seu. Tão pessoal quanto uma impressão digital. Não temos o menor poder de transformar este número. Mas podemos medir sua intensidade. Posso escolher respirar às pressas, engolindo o ar enquanto tento conversar e me desdobrar em malabarismos ou posso respirar as mesmas respiradas calma e lentamente, sorvendo o ar com requintes de um sommelier. Não está super na moda degustar vinhos, chás, chocolates? Por que não degustar o ar? Além de diferente e divertido, dá até pra ganhar uns anos. Diga-me como respiras que te digo quanto tempo viverás.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
As cobras do caminho.
Quando eu era pequena, morava numa fazenda. Era a irmã do meio. Além dos meus dois irmãos, às vezes tínhamos a permissão de levar também para nossa casa um ou dois amigos. Éramos, portanto, uma verdadeira gangue, com idades em escadinha. Diversão garantida. Hoje eu tive um flash muito forte de uma de nossas aventuras. Não sei de onde saiu, mas ele veio, com uma clareza de dar saudade. Vizinha à nossa casa, no campo do lado, e bem longe (pra mim, que era pequena, beeeeem longe mesmo - não faço ideia de que distância), ficava a casa do nosso tio, já falecido, onde morava minha tia. Nas férias, os primos vinham da capital, Porto Alegre, e nos encontrávamos todos. Às vezes íamos de carro até lá, quando minha mãe nos levava pela estrada. Mas a aventura de verdade acontecia quando íamos a pé, sozinhos, atalhando pelo mato. Quase não dormíamos na noite anterior, preparando nossa grande aventura. Dos fundos da nossa casa, caminhávamos um campo grande (e limpo), numa descida muito íngrime que dava numa sanga (um córrego) no meio do mato fechado. Do outro lado, já na subida, tinha uma grande plantação, geralmente de milho, pela qual tínhamos que passar para chegar na casa da tal tia, a tia Adi. A grande adrenalina acontecia justo na passagem da sanga. Por causa do "perigo das cobras". Cresci ouvindo minha mãe falar o quanto eram perigosas. E eram. Na região tinham cobras realmente venenosas, com veneno letal e rápido para agir antes de chegarmos na cidade. Ou seja, não havia chance se fôssemos picados. Felizmente, fora algumas histórias bem pitorescas, nunca houve nenhum acidente. Mas sabíamos que elas estavam ali, à espera de um descuido nosso, principalmente no horário de sol quente quando, segundo nossa mãe, elas saíam para passear (belo artifício para que não fugíssemos da "hora da sesta"). Como eu ia dizendo, o ápice da ida à casa da tia pelo mato era atravessar a sanga. Alguns poucos metros de pura emoção porque justo ali havia a grande chance de "darmos de cara" com alguma cobra. Passávamos voando por aquele pedaço do caminho. Meu irmão com um pau na mão, todo machão, e nós, as meninas, aos gritinhos. Chegar ao outro lado não tinha preço. Ou melhor, tinha. Tinha até um gosto. Depois de mais alguns bons metros de plantação, eis que chegávamos à casa da tia e nosso heroísmo era recompensado com um delicioso pote de figada (doce de figo). Não existia figada igual àquela.
Lendo o blog da Bia Del Picchia e a Cris Balieiro (O feminino e o sagrado) e resgatando a jornada do herói de Campbell, me dou conta do quanto estas pequenas histórias marcam nossas vidas. E acabam moldando nossas personalidades. Crescemos e os tais caminhos para o pote de figada cresceram conosco. As cobras seguem por aí, agora travestidas de trânsito, projetos e até com nomes de gente, nas empresas, nas nossas relações. Algumas venenosas de verdade. Outras, nem veneno têm, mas seguem mexendo com nossa imaginação. Pois são elas, da cor que tiverem e do tamanho que forem, que nos ensinaram, e continuam a ensinar, que as nossas vidas não são só flores. As cobras, os nossos medos, estão ali só para sinalizar e para nos lembrar que somos nós os responsáveis pelas nossas vidas. Seres da natureza que são, estão, na maior parte das vezes, apenas assustadas. Dão o bote, picam, quando estão acuadas. Mais do que fugir delas, estejamos atentos às que aparecem nas nossas vidas. E agradeçamos. São elas que nos trazem mais adrenalina e um tempero de real à nossa existência. Como na jornada do herói de Campbell, são as batalhas que reenergizam nossas histórias e nos permitem recontá-las, depois, fortalecidos. E assim, de aventura em aventura, vamos vivendo e aprendendo. E nos tornamos seres mais completos. Há um plano B? Sempre há. Neste caso, ficar em casa e não ultrapassar a sanga. Sem o risco das cobras. E também sem o gosto da aventura e a delícia da chegada. Todos os dias fizemos uma ou outra escolha.
* neste post do blog da Bia e da Cris, que eu citei, tem um videozinho lindo contando, de forma bem lúdica, a jornada do Herói de Campbell. Vale a pena espiar :)
http://www.ofemininoeosagrado.blogspot.com.br/2013/06/o-que-faz-um-heroi.html
Lendo o blog da Bia Del Picchia e a Cris Balieiro (O feminino e o sagrado) e resgatando a jornada do herói de Campbell, me dou conta do quanto estas pequenas histórias marcam nossas vidas. E acabam moldando nossas personalidades. Crescemos e os tais caminhos para o pote de figada cresceram conosco. As cobras seguem por aí, agora travestidas de trânsito, projetos e até com nomes de gente, nas empresas, nas nossas relações. Algumas venenosas de verdade. Outras, nem veneno têm, mas seguem mexendo com nossa imaginação. Pois são elas, da cor que tiverem e do tamanho que forem, que nos ensinaram, e continuam a ensinar, que as nossas vidas não são só flores. As cobras, os nossos medos, estão ali só para sinalizar e para nos lembrar que somos nós os responsáveis pelas nossas vidas. Seres da natureza que são, estão, na maior parte das vezes, apenas assustadas. Dão o bote, picam, quando estão acuadas. Mais do que fugir delas, estejamos atentos às que aparecem nas nossas vidas. E agradeçamos. São elas que nos trazem mais adrenalina e um tempero de real à nossa existência. Como na jornada do herói de Campbell, são as batalhas que reenergizam nossas histórias e nos permitem recontá-las, depois, fortalecidos. E assim, de aventura em aventura, vamos vivendo e aprendendo. E nos tornamos seres mais completos. Há um plano B? Sempre há. Neste caso, ficar em casa e não ultrapassar a sanga. Sem o risco das cobras. E também sem o gosto da aventura e a delícia da chegada. Todos os dias fizemos uma ou outra escolha.
* neste post do blog da Bia e da Cris, que eu citei, tem um videozinho lindo contando, de forma bem lúdica, a jornada do Herói de Campbell. Vale a pena espiar :)
http://www.ofemininoeosagrado.blogspot.com.br/2013/06/o-que-faz-um-heroi.html
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Quem nunca.
Dia destes eu assisti num filme um diálogo clássico da filha cobrando a mãe por ter ficado com seu pai apesar dele tê-la traído. Rancorosa, magoada, ela, a filha, comentou que a mãe não tinha o direito de ter feito de conta que nada aconteceu. Que não poderia ter ficado com ele e que se envergonhava por todos saberem da história, menos ela. Eis que a mãe, no auge de sua maturidade (e beleza), conta a ela que optou por ficar com o marido apesar do erro dele, mas acima de tudo porque optou por olhar para tudo de bom que eles tinham construído juntos ao longo de muitos anos. Longe de querer defender as traições e seus traidores (eu acho que são os que mais sofrem), acho muito difícil conseguirmos fazer este exercício. O de olhar o todo justo em situações extremas. Hoje tive uma conversa muito franca com algumas pessoas sobre erros e suas repercussões. Os erros são chatos, destroem nossas auto-estimas e tiram como um tampão toda uma credibilidade que construímos a conta-gotas. Mas, humanos que somos, erramos. Se não aconteceu, vai acontecer. Se já aconteceu, pode acontecer de novo. Ok, de preferência, que sejam erros novos. Repetir o mesmo erro é perder tempo. Na verdade, se fôssemos realmente perfeitos, desconfio que não teríamos motivos para estarmos aqui. Nas nossas pequenas imperfeições moram, às vezes, grandes belezas. A sarda do rosto que alguns tanto odeiam são, muitas vezes, o seu charme. O ponto não é não errar, mas saber o que fazer diante do erro, agindo como gente grande e enfrentando o bicho de frente. Tão fácil se queixar, colocar a culpa no outro, choramingar, fazer de conta que nada aconteceu, esconder-se embaixo da cama. Quantos de nós já não assistiu de camarote crises ocultas intocáveis que, tempos depois, viraram grandes e desastrosas tempestades? Mexer na ferida, conversar sobre o assunto e chegar na sua raiz são males (ou bens) necessários para a nossa evolução. Mas como fazer sem taxar, julgar, machucar ou bloquear? Que atire a primeira pedra quem nunca.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Não tá fácil!
Sabe quando você chega em um lugar que
não conhece ninguém e precisa puxar um assunto para criar um link e
uma conversa? Pois bem, geralmente acabamos falando sobre o tempo.
“Tá frio.” “Nossa, quanta chuva!”. No elevador sempre
acontece. Em São Paulo, vale falar do trânsito: “Peguei um
engarrafamento sem fim para chegar aqui!” “Nossa, eu também!”.
Mas se tiver um pouco mais de tempo e quiser um tema que não tem
erro nunca, queixe-se da vida. Isto mesmo, resmungue, reclame e, em
poucos segundos, terá encontrado eco no outro. “Não tá fácil”
pode ser um bom começo. “Na luta”, “Estou destruído hoje”
ou “Não aguento mais meu emprego” também são infalíveis.
Parece que existe um imã nos seres humanos quando este tipo de
assunto aparece. Uma comoção coletiva e uma sutil competição de
quem é mais coitado na história. Se você não se queixar um pouco,
meu amigo, sequer será respeitado. A última edição da Vida
Simples falou sobre a grama verde do vizinho e sugeriu que as nossas
também podem ser verdes. Eu entendo que não trata-se de enxergar o
mundo cor de rosa, mas optar por aquilo que é bom e isolar o que não
faz sentido para parar de sofrer. Ou até aprender com a desgraça
que chega para nos alertar. Quem não conhece alguém que renasceu
melhor depois de uma doença grave? Os tais reforços positivos fazem
sentido pra mim. Eu acredito muito que quando estamos com uma nuvem
negra sob nossas cabeças, a tempestade vem e, com ela, um monte de
coisas desordenadas e estabanadas. Que quem tem muito medo de bicho
papão acaba encontrando-o embaixo da cama. Ainda que todos nós tenhamos problemas, a opção de sermos vítimas ou protagonistas é nossa. De
mais ninguém. Dentro daquela linha “tô meio cansada de gente
assim”, ando meio revoltada com as choramingações alheias. Mas,
sociável que sou, confesso que, pra não ficar chato, até dou uma
grunidinha vez ou outra. Senão o papo nem começa. “Dia cinza
este, não?”
terça-feira, 4 de junho de 2013
Guru de dentro.
Eu escrevi aqui no blog certa vez a história que um indiano me contou de que Deus se esconde dentro da gente e, por procurarmos por ele em toda parte, o tempo todo, esquecemos de buscar justo dentro de nós, onde ele vive, afinal. Somos nossos próprios deuses e, portanto, responsáveis por nossos céus e infernos. Tem a ver também com o tal figura do líder, tão polêmica dentro e fora das empresas. Estou cada dia mais cética com a busca de algumas pessoas por um "ente" especial que diria a elas o que fazer, quando fazer, como fazer. Uma criatura acima da média, "dona da verdade," capaz de, além de pensar no seu destino, determinar o dos outros também. Quantas vezes tentamos entregar nossas vidas nas mãos de alguém por falta de coragem de a tomarmos em nossas mãos? Lamento. Ninguém, que não nós mesmos, com nossas pequenas grandes escolhas, pode construir a nossa história. Somos nós que, conscientemente ou não, fizemos escolhas, erramos, acertamos e nos tornamos quem somos. Mais que líderes e mestres, quero estar perto de pessoas felizes e realizadas que, livres que são, fazem aquilo que sentem e vibram com suas escolhas. Por estarem assim tão leves, acabam inspirando, provocando e tirando de nós boas coisas que adormeciam nos nossos medos infantis. Elas não ditam, não mandam, não discursam. Tampouco se queixam. Não querem ser exemplo e não fazem o que fazem para agradar ninguém, que não a si mesmas. Erram e acertam porque estão vivas. E porque se permitem experimentar coisas diferente do padrão, são o que são, de dentro pra fora. E isto já é muito.
domingo, 2 de junho de 2013
Apenas cinco.
Ontem a tarde foi cinza e chuvosa. E meu marido aproveitou para colocar em dia aquela interminável lista de filmes que os amigos dos amigos indicam e nunca conseguimos ver. Nem o acompanhei. Aproveitei a paz do recinto para colocar minhas coisas em ordem. Mas, curiosa que sou, quis saber dos enredos. O último dele contava a história de uma menina que "fez América na capital", ou seja, deixou a casa dos pais bem cedo e foi embora começar uma nova vida na cidade grande. Lá se descobriu, construiu uma carreira, uma vida. Casou, conquistou muita coisa bacana e, num belo dia, sofreu um acidente e perdeu a memória. O fim da meada da história é justamente a tentativa de resgate dela por ela mesma. Voltou para a cidade de origem, reencontrou pessoas e, aos poucos, foi remontado as peças do quebra-cabeças da própria vida. Não sei como terminou o filme, nem se ela recuperou a memória e foi feliz para sempre. Mas fiquei brincando de exercitar o "e se" e pensei o que eu faria se algo assim acontecesse comigo. Claro, não teria a consciência de buscar um caminho lógico assim mas, tateando, chegaria a algumas pessoas que resgatariam fatos que, enfim, me contariam um pouco de quem eu me tornei até o presente momento. O exercício seguiu e cheguei a um pequeno desafio pessoal. E se eu fosse escolher cinco pessoas, somente cinco, que pudessem, com muito cuidado e propriedade, reapresentar a Andréa a ela mesma, quem seriam elas? Resgataria algum amigo de infância que me contaria causos da Andréa estudante? Alguém da faculdade, certamente, minha irmã, provavelmente. Quem mais? Como numa edição de um filme, a escolha das cenas faz toda a diferença no resultado final. Algumas falas diriam muito de um alguém que fui e ficou pra trás. Outras, ainda que atuais, jamais trariam pedaços ocultos que só os bem íntimos puderam viver comigo. Cada conjunto de cinco, dependendo da configuração que eu montasse, traria faces minhas muito próprias, todas elas diferentes entre si. E ainda assim, todas muito minhas. Assim é o filme da vida. Feito de pedaços de quem pensamos que somos e de outros tantos que as pessoas nos ajudam a ser, em suas falas, percepções, em suas lentes que também moldam. Fica o convite. E se você fosse escolher cinco, apenas cinco, quem seriam?
* By the way, pra quem quiser saber o fim "desta história", o nome do filme é The Wov :)
* By the way, pra quem quiser saber o fim "desta história", o nome do filme é The Wov :)
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