segunda-feira, 20 de maio de 2013

Aquelas vozes internas.


Semana passada eu conheci uma menina com nome de flor. Falamos sobre a vida, sobre as nossas inquietudes e sobre nossas vontades de voltarmos a exercitar lados que ficaram adormecidos. Eu super me empolguei quando ela comentou que participou de algumas dinâmicas de conversas com tricô na roda. Enquanto se tricota (e aí desvia-se o cérebro, abrindo um lado criativo e despretencioso), flui a conversa e surgem conceitos e novas ideias. Pode ser tricô, origami, desenho, pintura de mandalas. Cada um usa um jeito. Todos válidos e igualmente lúdicos. Daí surgiu uma fala dela da vontade de voltar a escrever. Segundo ela, o dom da escrita era algo bem apurado na infância, até que um dia ela mostrou um texto para a avó que, muito rígida, disse que estava péssimo. O que aconteceu? Hoje, 20 anos depois, sua auto-crítica ainda não permitiu que tenha voltado a escrever. Aquela voz interna da avó somada ao olhar de repressão simplesmente castrou naquela menina, agora mulher, toda e qualquer coragem de colocar no papel suas experiências. Quantas vezes não fizemos isto com nossos filhos, amigos, com nossa equipe? Eu mesma, com meu jeito brincalhão de falar, já disse para a filha de uma amiga que o desenho dela estava "feio". Claro, ela não entendeu como ironia e não achou nada divertido. Um desastre! Então tá, como não matar as nossas crianças internas e, ainda assim, trabalharmos em cada uma delas seu senso crítico, em busca de uma qualidade genuína, que sempre pode ser melhorada? Uma pista: tem a ver com o jeito de falar, desconfio. E, claro, com o queridíssimo paradigma do cuidado, do Bernardo Toro. Cuidar não custa nada. E vale muito. Assim, fantasmas com potencial de nos atormentarem por toda a vida podem virar amigos imaginários nos ajudando a exercitar o que temos de melhor, livres e entregues às nossas verdadeiras vocações. Quem topa começar?

domingo, 19 de maio de 2013

Foi num 28 de setembro.


Era um dia bem ensolarado, daqueles típicos de começo de primavera. Friozinho. Numa casa neo até no nome, recém inaugurada, 44 corajosos reuniram-se, baseados simplesmente na confiança e na intuição. Eu, barriguda que só de uma Carolina que chegou pouco mais de um mês depois, fui uma das provocadoras / anfitriãs, curiosa deste encontro que, para mim, foi só a faísca de muitos outros que virão. Já estão vindo! Ninguém sabia o que era, por que era nem quem estaria lá. Mas todos confiaram e foram. Alguns meses se passaram e o que conversamos num grande círculo no dia 28 de setembro de 2012 nunca esteve tão atual. Somos, afinal, seres inquietos, “almas inquietas”, como nos chamamos depois. Este encontro aconteceu de fato. E continua retumbando na minha cabeça. Não acho justo não divulgar o que falamos por lá porque, de uma forma ou outra, cada um de nós foi um pouco espelho do momento que vivemos hoje na tal Humanidade. Aqui vai o relato que fiz uns dias depois. Assim, meio solto, meio de sopetão, ainda engasgado e sendo digerido. Cada frase daria um post e uma semana de reflexão. Sigo desaprendendo com tudo o que aprendemos por lá.

By the way, o que inquieta as nossas almas?
No último dia 28 pudemos falar sobre isto num grande círculo aberto de sentimentos e percepções. Éramos 44, mas representávamos bem mais que este número, até porque nós mesmos estávamos lá carregando diferentes papeis e personagens. De gestores e profissionais, felizmente, levamos poucos e conseguimos deixar relativamente do lado de fora as preocupações corporativas para levarmos um tanto de nossas outras personalidades. E era uma sexta-feira de fechamento de mês e trimestre! Ninguém chegou lá com seus cargos ou sobrenomes. Éramos nós mesmos, em primeiro nome, todos inquietos, curiosos e corajosos para nos entregarmos a algo que nenhum sabia o que seria.
Aos poucos, o círculo fluiu e os pontos de conexão começaram a se estabelecer, num discurso individual que tinha muito de coletivo. Cada fala poderia ser minha. Na verdade, era um pouco de cada um retratado na boca do outro. Ufa. O convite tinha sentido e as pessoas, tão diferentes, estavam ali todas muito iguais.
Levamos objetos e fotos que nos representam e despimos nossas almas para mentes desconhecidas.

Falamos de nossos medos, desejos, sonhos, inquietudes. Das redes digitais X livros físicos, dos nossos filhos, nossos hobbies, do que fazemos para aquietar nossas cabeças. Contamos que largamos nossos empregos para buscar sonhos, que sentimos falta de um propósito, que nos sentimos incompletos e que queremos exercer nos nossos dia a dia quem nós somos de fato. Descobrimos, juntos, que não fazemos nada sozinhos, que unir pontas e juntar coisas faz cada vez mais sentido. Queremos desaprender juntos e nos alfabetizar novamente. Desta vez, alfabetizar os nossos emocionais.

Respondemos ao chamado, à palavra “venha” e, quando vimos, estávamos ali, entregues, nos enxergando como seres desta casa-planeta tão ampla. Somos parte deste todo. Compartilhamos a necessidade de enxergarmos além do que vimos, a importância de usarmos novos olhares para abrirmos nossos campos de visão. E que talvez nossos filhos sejam grandes pontes para nos ajudarem nesta amplitude visual. Sempre vai ter um espaço que não compartilhamos. É neste gap que entra a confiança para enxergar o que eu não estou vendo.

Chegamos por causa de uma sequência de eventos, que começaram no dia em que nascemos. Somos o que construímos. Vimos, independente das idades e das tais “questões geracionais”, pessoas lidando com um novo social. Não precisamos de organizações hierárquicas para nos relacionarmos. Este tal “livre arbítrio” nos inquieta. Afinal, o que cada um vai colocar nesta malha abundante para deixá-la fluir?

Trouxemos histórias em comum de pessoas empreendedoras e corajosas. Muitos de nós trouxemos histórias de família de também empreendedores que nos inspiraram. Éramos muitos engenheiros, todos abertos a reengenharias de vida, sobretudo, engenheiros de gente, questionando coisas da vida, modelos de produção em consumo, com a certeza de que uma mudança é possível. A mudança ainda não aconteceu porque as pessoas não querem. Falta a transformação pessoal.

Enxergamos nos nossos filhos suas capacidades de viverem o agora, de não terem limites nem medos. Por que nós não nos permitimos viver o agora? Temos que esperar as aposentadorias para nos prepararmos para usufruirmos de uma “tal liberdade”?

Esta coisa de nação, local, regionalismos, isto tudo já era. Foi. Não estamos falando de reforma, mas de uma grande revolução. Precisamos de gente jovem disposta realmente a mudar, tenha ela 15, 40 ou 70 anos. Juventude de sangue e coragem para mexer. Nós ainda não acreditamos uns nos outros, não nos entregamos, “vamos dar com a cara no poste e continuamos andando a passos firmes”. Digamos não aos esteriótipos, não adianta mais discutirmos a superfície! Temos que ir no âmago.

E aí vem a pergunta: qual é o legado disto tudo que eu estou fazendo? Como apresentar projetos que não sabemos como fazer e como encontrar pessoas que topem saber que não sabemos? Não sabemos o que fazer mas estamos dispostos a fazer. E este tal processo colaborativo pode ser bacana. Com que pessoas, afinal, eu quero trabalhar? Com quem quero customizar a minha “vaca em branco”? Tem a ver com educação, reeducação, “deseducação”. Precisamos procurar as pessoas certas para dar sentido a tudo isto. Precisamos sair do efeito “manada” e deixarmos de ser mais uma vaca no rebanho. Estamos abrindo mão de sermos humanos!

Como, então, modificar esta realidade? Como nos comunicarmos / interagirmos diferentes dos animais? Onde fica nosso poder de indivíduo na sociedade? Estamos realmente buscando romper para sairmos do rebanho, buscando outras questões? Como construirmos uma linguagem comum às nossas inquietações? Como sermos elásticos para mudar, sem perdermos nossa capacidade de amarrar as coisas de vez em quando?

Já percebemos o poder das comunidades. Pequenas cidades podem fazer milagres. Precisamos tomar o poder de volta e agir, fazermos uma viagem ao interior para encontrarmos mais sentidos para nossas vidas. O que queremos é tão simples quanto amar e sermos amados, sermos reconhecidos. Por que, então, é tão difícil? Buscamos a auto-suficiência, queremos criar nossos mundos, com energias renováveis e renovadas. O alimento nos ajuda, as histórias de vida de nossos avós, a consciência do local dentro do global, a comida que também alimenta a alma. Queremos criar cidadania, dignidade, curiosidade, propósito, com pessoas jovens de espírito ou com espírito jovem. Queremos transformar, queremos encontros de troca e experiências, queremos viajar para um mundo melhor, inovar, renovar.

Somos um pouco físicos, curiosos, vivemos num mundo de incertezas, da interdisciplina, da rede. Não temos que salvar o planeta. Temos é que nos salvar enquanto pessoas que somos. Fazemos as mesmas coisas há tempos e esquecemos de renovar as nossas energias pessoais. Onde isto vai parar? Fazemos força demais para as coisas erradas. Não basta sermos esforçados. Temos que direcionar esta força toda para o lado certo. Preciso de um outro sistema onde eu me apoio, de pessoas que queiram transformar o mundo tocando no mundo atual.

Temos muitas coisas importantes ainda por fazer. E temos todos, como pessoas, condições de darmos mais. A força agora é no cidadão, no poder de fazer a transformação. Fazer um churrasco, reunir a família, os amigos, isto nos renova, reconecta, desperta os sentidos.

Nossas fraquezas, tão escondidas, são, afinal, bem-vindas. O que eu precisava era só aprender a pedir ajuda. Não consigo fazer nada sozinho. Nos reunimos neste dia 28 para pedirmos ajuda para construirmos os nossos caminhos. “Quanto mais eu consigo me entregar e pedir ajuda, mais forte eu fico.”

Se não pararmos de dar corda às nossas almas inquietas, nossos bichinhos vão continuar pulando e girando sem rumo e seguiremos como pessoas desconectadas. Quem tem coragem de dar um fim a isto, de admitir fraquezas, de resgatar as palavras e as pessoas? Viemos aqui por conta das palavras. Escrever ajuda.Voltemos ao mundo das palavras para reaprendermos a viver com alguma serenidade.

Se olharmos lá fora – e também aqui dentro – as pessoas que puderam fazer um balanço de suas vidas se arrependeram de coisas bem simples. Como de terem tido pouco tempo para a família, para as coisas coloquiais, banais, triviais, simples. Vivemos com culpa por não estarmos inteiros com os filhos, os amigos. E daí vem o dilema: geramos valor para os acionista ou jogamos bola com a gurizada? Os lugares onde conseguimos nos reconectar não têm nada de luxo. São triviais. Nos reencontramos correndo, no silêncio do mar à espera de uma onda, cozinhando, rabiscando. Temos instintos bem básicos que procuramos contemplar toda hora e esquecemos de um bem importante: o gregário! Precisamos viver em bandos! Precisamos nos encontrar com as pessoas e queremos que estejam o mais inteiras possíveis em cada um destes encontros, com menos avatares e mais alma. Somos produtos à venda nas redes sociais, observados, expostos. Onde fica nossa abordagem mais crítica do consumo para que não viremos, novamente, manadas?

Alguns de nós meditam há anos. Outros têm a vontade, mas ainda não a coragem. Nos inquietamos com as doenças da sociedade, com o piloto automático que vivemos, com a corrupção escrachada, com a impunidade. Que filhos vamos deixar para o mundo? Será que nos demos conta que o tal modelo capitalista também fracassou? Preparar para o vestibular desde a primeira série não serve! Quem nos prepara para a vida? Estamos cuidando de periféricos e esquecemos de nossos pontos centrais! Viramos escravos de um modelo muito bem montado. E este consumismo exacerbado incomoda. É comum, mas não é normal!

Estivemos reunidos porque tivemos a coragem e a capacidade de estarmos juntos sem piloto automático, de fazermos, pelo menos um dia, meio sem mapa. Nos encontrarmos trouxe um pouco de conforto, deu alguma referência, ainda que móvel, aos nossos mares pessoais. Trouxemos fluidez e entendimento às nossas questões, nos sentimos “meio sócios” em propósitos, nos reconhecendo uns nos outros como seres humanos capazes de confiar, de admirar e ter afinidades. O futuro da competição tem a ver com unir e co-criar, com o valor da troca, com arte, sabedoria e conhecimento. A arte nos faz mais humanos, mais sensíveis. Vamos resgatá-la em nossas vidas!

Fomos para a vida feito passarinhos e estamos reaprendendo a voar. Nos encantamos com as relações, com a profunda transformação do mundo, que já começou. Nossas vidas têm sido um grande voo, um bater de asas, uma desconstrução, uma reassociação. Chegamos cheios de incertezas porque, no fundo, gostamos delas. Cada vez que fizemos uma viagem, estamos mergulhando num universo de incertezas. Estarmos mais conscientes sobre as incertezas ajuda. Buscamos em nós mesmos, nos nossos nomes “oficiais”, ou nos nossos apelidos, espaços para sermos inquietos e também felizes. Nos adaptamos, corremos, buscamos nossos tigres de pelúcia para reaprendermos a magia de brincar. O tempo passou rápido e nossas crianças ficaram pelo caminho. Nossos oráculos do pão estão aí, disponíveis para nos ajudarem a re-despertar e a nos redescubrirmos.

Quem de nós já chegou do outro lado, já tem tempo pra família, já vive no mato, também está em crise. Bela ironia do destino! Reconstruir laços também faz parte. Não dá pra ser feliz sozinho. Há uma força divina na co-criação, nesta coisa que nos une pela respiração. Somos privilegiados, até por nos permitirmos parar e questionar. São as diferenças que nos fortalecem como grupo, para que não nos tornemos pequenas igrejas. Resgatemos nossas inocências, reaprendamos a sintetizar. As lições todas já foram ensinadas. E os pontos de contato vão aparecendo nas falas, à medida em que interagimos, que trocamos.

Temos, juntos, a capacidade de gerar ação, de fazermos uma transformação profunda. Vamos passar a viver muito mais tempo. O que fazer com isto tudo? Somos indivíduos altamente conectados, protagonistas em nossos locais. Temos que reaprender a tirar o sorriso dos outros, a desarmá-los, nem que tenhamos que vestir uma máscara de “lobo mau do bem”. É simples como isto. Porque acessamos o lado infantil do outro, o desarmamos quando o fizemos. Não é doutrinar. É pensar em experiências positivas, em pequenos grandes movimentos que nos ajudem a aprendermos a envelhecer e a viver. Estamos falando em amizade, em intelecto, em buscas espirituais, pessoais, em nos reconhecermos como veículos de passar coisas que conhecemos ou descobrimos. Pedir ajuda, dar as mãos, afinar relações podem ser bons caminhos. E não adiantar só pensar, desenhar. Temos também que agir, levar para um lugar melhor algo do que aquele que você pegou. Nossas funções são fazer alguma coisa, criar, concretizar também.

Para isto, precisamos, de tempos em tempos, respirar o vazio e o silêncio. Esquecer um pouco a aflição de estarmos aflitos e encontrarmos serenidade e paz para nossas inquietudes. Façamos o que está ao alcance de nossas mãos. E já está de bom tamanho.
Nos reencontramos, no grupo, com conexões antigas e inesperadas. Com pessoas que não víamos há tempos. E com outras tantas que nunca vimos e que disseram muito de nós. Nos descobrimos inquietos porque nos enxergamos como grandes árvores de natal, cheios de coisas penduradas. Temos que desconstruir! Encontrar a essência. E isto vale ainda mais para aqueles que começaram já a jogar “o segundo tempo” da vida.

Nos dedicarmos àquilo que realmente importa, à essência, a fazer menos e melhor.
Reencontramos nossos perfis exploradores, grandes guerreiros, amantes e descobridores da impermanência da vida. Nos inquietamos com reuniões demais e ações de menos. Tem que ter fricção para fluir. Mais que guerreiros, que todos somos – e dos bons, chegou a hora de “largarmos um pouco as velhas armas” e nos redescobrirmos como cuidadores. Primeiro, de nós, para então aprendermos a cuidar do entorno e, quem sabe, do planeta. Se eu ainda não sei nem cuidar de mim, como vou cuidar do outro? A vida cuida da vida. Vivo dos instantes e do momento. E como dizem os “novos filófosos”, “quando a mente fica quieta é tão bom porque depois ela se enche de ideias”.

* E se eu fosse escolher uma só palavra pra tudo isto? Desaprender! Simples assim. Mas quem disse que é simples?

sábado, 18 de maio de 2013

As chaves do Oswaldo.


Eu fiquei quebrando a cabeça para saber qual deveria ser o primeiro post do resto desta nova jornada, um ano depois. Ano sabático do blog, coisa forte, nada a ser dito. E tudo o que eu imaginava como um bom recomeço parecia não ser relevante o suficiente para a tal “volta”. Daí eu vi que se continuasse assim, nada seria escrito. E resolvi começar a escrever nos últimos dias as coisas que me intrigavam justo neste período. As outras todas, de um ano atrás até aqui, ficaram meio que pra trás. Fazer o que. Impermanência, desapego, enfim.
Pois bem, uma das coisas que tem me intrigado nos últimos tempos são as chaves do Oswaldo. O Oswaldo é um cara bacana que apareceu na minha vida no ano passado e, assim, acabou ficando. Sorridente, inteligente, generoso, provocador, é o “cara das redes” e prega, na teoria e na prática, um mundo compartilhado, mais dividido, menos linear, digamos. Ok, “prega” é um verbo meio forte, até porque ele não tenta convencer ninguém a nada. Simplesmente chega e compartilha o que vê, experimenta.
Este papo todo de um mundo mais co-criado, onde os papeis se auto-regulam (como na natureza) e tudo flui parece conversa pra boi dormir, como dizem na minha terra. Mas, não. E há teorias e algumas boas práticas sobre isto, felizmente.
Justo para “experimentar” esta coisa toda, recentemente o Oswaldo criou uma história muito bacana. Dividiu em pedaços uma casa super astral, na Vila Madalena (bairro charmoso aqui de SP) para que diferentes pessoas pudessem se instalar por lá e, dependendo do número que demonstrasse interesse, dividissem por igual as despesas do espaço. Mais ainda, estas mesmas pessoas, que já começaram a surgir – e que toparam a ideia – têm a missão de se auto-regularem por lá, organizando a agenda do espaço e decidindo, juntas, o que tem a ver com a casa que tipo de atividades pode acontecer, quando, como e com quem. Não tem um dono. Tem um grupo de criaturas ousadas que toparam fazer daquele espaço um espaço seu – e também “nosso”. A coisa já começou. Claro, com um empurrão do Oswaldo, mas começou. Para simbolizar tudo isto, ele, o Oswaldo, tirou muitas cópias das chaves e as distribuiu para estas pessoas que, a partir de então, são co-responsáveis pelo espaço. Tão simbólico quanto a entrega das chaves da cidade para pessoas importantes da sociedade. Alguém lembra? E não para por aí. As mesmas chaves daqui de São Paulo serão entregues às pessoas de uma casa com este mesmo espírito que já existe em Porto Alegre, numa rua, vejam só, chamada Liberdade. No meio disto tudo, têm surgido situações pitorescas e muito animadoras. Em algumas das “entregas das chaves”, o Oswaldo recebeu, em troca, as suas chaves de casa da pessoa. Teve até quem quis entregar a ele as chaves do carro, num gesto amoroso de “entendi o seu recado, amigo.”
Quantas vezes nós não temos ideias assim, tão doidas e maravilhosas? Quantas vezes não imaginamos espaços abertos com pessoas que fazem sentido, a construção de novos mundos dentro dos nossos mundos possíveis. E quantas foram as vezes que nós mesmos desistimos, por vergonha, medo, por não sabermos, enfim, como começar? Pois bem, graças a alguns corajosos malucos, vejo pipocar por aí iniciativas impressionantemente simples e deliciosamente transformadoras. Abrir mão do nosso senso crítico castrador, vez ou outra, tem tudo para revelar muita coisa linda logo ali, do outro lado da porta.  

Voltei :)


Hoje faz um ano e cinco dias que eu não escrevo no blog. O mundo rosa ficou adormecido enquanto uma nova Andréa despertava. A mãe da Carolina chegou neste meio do caminho com tudo. Intensa, curiosa, ainda mais questionadora e, sim, muito feliz. Tenho me redescoberto a cada dia e ainda não sei aonde esta brincadeira toda vai parar. Só sei que, apesar de tudo ser tão novo – talvez justamente por isto – me agrada muito. Neste período, promovi encontros, conheci mais gente, tomei mais cafés (ou chás, ou sucos) e estou ainda mais segura de que são as relações entre as pessoas que nos renovam. Ficar sozinha num cantinho é bem fácil. Vai dividir, questionar, encontrar espelhos por aí. O bicho pega. Que bom. Pois bem, graças ao convite da Ana Goelzer, uma querida que sorri com os olhos, estarei no Tedex Laçador em junho, em Porto Alegre. E graças a tudo isto, resolvi colocar no meu “curriculo” o blog, como uma forma de provocar a mim mesma para resgatá-lo. Tava na hora. Precisamente na hora. Só as conversas que eu tive com algumas destas pessoas que mexem com a vida da gente nos últimos dias já dariam pano pra manga pra uns 20 posts. Então tá. Assim, aos poucos, sem muito filtro (para eu mesma não me barrar), devo voltar a falar de mim e do que eu tenho visto por aí. O tom rosa está ainda mais intenso, mas há várias várias outras cores, igualmente fortes, que têm dado à minha existência ares bem interessantes. Devo compartilhá-los novamente por aqui. Comigo mesma (sempre me surpreendo ao reler os textos uns dias depois) e, quem sabe, com alguém como você, que me lê agora e que, de alguma forma, me anima para continuar nesta jornada.

* a menininha sorridente da foto é, sim, a Carolina, minha filha maravilhosa e responsável por muitas das mudanças na minha vida nestes últimos meses. Mas não por todas, felizmente :)  

domingo, 13 de maio de 2012

Mulheres possíveis.


Semana passada eu fui no lançamento do segundo livro da Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro, "Mulheres na jornada do herói - pequeno guia de viagem". Em formato de "diário de bordo, a obra resgata as histórias de mulheres reais do primeiro livro, todo construído com base no modelo mitológico da jornada do herói, de Joseph Campbell. Desta vez, de modo ainda mais simples, elas nos convidam para viagens para a qual somos convidados (as) diversas vezes ao longo das nossas vidas. Viagens para quem quer correr risco e ousar. Geralmente, acontecem de forma inesperada, como uma grande ruptura ou um grande empurrão da vida e nos leva rumo ao desconhecido. Separações, doenças, mudanças pessoais e profissionais, descobertas de novos talentos. Todas estas podem ser possíveis jornadas. E, mesmo com a palavra herói / heroína acompanhando, em tese, os corajosos viajantes, nem sempre o que se vê / vive no percurso é assim tão digno de contos de fadas. Tem dor, um medo que paraliza, mestres, dragões e ameaças, e exige, a cada passo, uma boa dose de disciplina, educação e paciência. Tem a tal estação da "situação limite", um verdadeiro rito de passagem que, segundo as autoras, te faz morrer e renascer, se perder para se reencontrar. Até chegar no bliz, no santo graal, e num espaço novo onde tudo se ressignifica e, então, recomeça. Não tem fórmula nem guia de viagem que sirva para cada jornada. Cada viajante vai construindo o seu, errando, aprendendo, caindo e levantando. E aí é que está a grande beleza do caminho. Eu lembrei demais de muitas mulheres com esta história, principalmente nesta semana tão marcante de "Dia das Mães". Mesmo sem assistir televisão, me vi bombardeada por uma série de mensagens marcantes e lindas que valorizam as corajosas criaturas que colocam ou criam novos seres no mundo. De um jeito bem heróico. Heróico demais, às vezes. Agora que estou entrando para o lado de cá, confesso que me sinto um pouco "impostora" diante deste tal "mundo rosa" da maternidade. Parece que ser mãe é sempre bem igual, sempre lindo de morrer. Todas sentem a mesma coisa, sorriem o tempo todo, estão 100% realizados com esta que foi a única tarefa para a qual foram talhadas na vida. Vejo a maternidade como algo bem heróico, sim. Pela coragem de encarar a jornada. De embarcar neste território desconhecido, com fadas e dragões, e de sair inteira do outro lado, ainda que nem sempre com a maquiagem irretocável. Tenho visto muitos filmes, lido muitos blogs que contam o "lado B" da maternidade, com muito humor e verdade. Nada de terror, calma. Mas muito de um mundo real. De mulheres reais que têm bem mais a ver com as minhas amigas mães do que com as criaturas intocáveis dos contos de fada. Guerreiras que ralam no trabalho, que fazem 1000 coisas ao mesmo tempo, que sentem culpa, têm dúvidas e mil vidas paralelas para administrar. E conseguem, cada uma do seu jeito, levar a vida. Pra mim, mãe tem que ser, acima de tudo, é mulher possível. Isto inclui uma carga grande de medos, de erros, acertos, situações inesperadas e nenhuma fórmula pronta para "guiar a viagem". E é aí que está a grande beleza da coisa. Nem uma criança é igual a outra, assim como nenhuma mãe precisa se encaixar em manuais para "dar certo". Senão perde a poesia e a natureza da coisa. Sei que minha nova jornada está recém começando. Meia dúzia de roupas na mochila e uma leve ideia de para que lado devo seguir. Estou curiosa, ansiosa e ainda me preparando para colocar o pé na estrada, de forma bem feminina e real. Sem abrir mão dos outros percursos que já percorri e dos outros tantos que espero que venham por aí. Enquanto isto, observo, curiosa, as histórias de cada uma destas mulheres corajosas que constroem suas jornadas com seus filhotes, sem manuais e ainda assim com muita maestria. A todas elas, todo o meu carinho e admiração. 

Quer saber mais sobre o livro da Cris e da Bia? http://www.ofemininoeosagrado.blogspot.com.br/

domingo, 15 de abril de 2012

Xingu. Essência dos Villas-Bôas em nós.

Acabei de voltar do cinema. Fui assistir Xingu. Temia que fosse uma produção "forçada" de índios. E voltei encantada com que eu vi. Não só pela produção primorosa, mas pela entrelinha de tudo o que o filme passa. Hoje de tarde eu assisti no Youtube um vídeo do Bernardo Toro, no TEDx Amazônia. Falava sobre cuidado. E sobre coisas bem básicas e esquecidas dos seres humanos. O Maturana fala disto, assim como outros tantos filósofos / pensadores contemporâneos. Parece que algo se perdeu e estamos tendo que reaprender a sermos gente e a nos relacionarmos com as outras pessoas. O que os irmãos Villas-Bôas fizeram foi simplesmente resgatar a essência humana em cada índio que contataram. Os índios, como os brancos, têm medos, sentimentos, emoções. E os tratamos como se diferentes fossem. O grande legado que os irmãos deixaram, além do Parque, claro, foi o de olharem e reconhecerem naquelas pessoas tão diferentes - e tão iguais - a essência que os move: busca de reconhecimento, de relações, de vínculos. E o fizeram não com uma ideologia sonhadora inocente. Entenderam a vida real e, mesmo assim, souberam agir, dentro de condições bem adversas e de contextos políticos bem fortes e questionáveis. Ao invés de se contentarem com suas condições bem sucedidas na vida, souberam articular relações de poder, em São Paulo, Brasilia e, ao mesmo tempo, olharam nos olhos dos índios e encontraram e reconhecimento em cada um daqueles que confiaram neles. Não podemos ser inocentes e imaginarmos que "um mundo rosa é possível". Estamos dentro de um mundo bem real e material, onde relações de poder nos movem todos os dias. Esta foi a cartilha que nos ensinaram e a queimarmos numa fogueira talvez não seja um caminho necessariamente inteligente. Mas, com bastante pé no chão e entendimento desta realidade, dá sim para lembrarmos as nossas essências humanas e tentarmos, nas nossas vidas cotidianos, fazermos a diferença, escutando as pessoas e tocando-as com nossas vulnerabilidades. Tenho falado muito nos "gnomos que fazem". Pra mim, serão eles os grandes responsáveis por grandes mudanças que virão logo em seguida. Eles não estão ilhados em seus mundos mágicos. Mas dentro de mundos bem reais e nem sempre tão poéticos, aprendem e ensinam a arte de cuidar e, pouco a pouco, contagiam com suas energias. Felizmente, São Paulo, esta cidade tão "cinza", me apresentou muitos deles. Quem sabe um ou outro não está plantando uma sementinha como a que os irmãos Villas-Bôas fizeram há 50 anos? Boa semana pra nós!

* o vídeo que comentei do Bernardo Toro: http://www.youtube.com/watch?v=7oUUTuOx3eU

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Ciranda de roda

Já faz horas que o tal círculo vem me perseguindo. Nos encontros mensais das gestadoras, onde falamos sobre o resgate do feminino, nas palavras da Isabel Allende, no livro que estou lendo “La suma de los días”, nas conversas do Humberto Maturana, onde ele reforça que conversar nada mais é do que dançar juntos, dar voltas juntos, numa dança recursiva de colaboração, nos aprendizados do Art of Hosting, onde nos redescobrimos num grande círculo de quarenta pessoas. Muitas metáforas das nossas vidas são circulares, têm começo, meio e fim e recomeçam, com uma grande dança orquestrada e completamente perfeita. Nós é que “enquadramos” demais, pensamos demais e acabamos por entortar aquilo que estava literalmente “redondo”. As tais conversar circulares ancestrais ao redor do fogo e a continuidade delas, hoje, nas nossas mesas de jantar, em família ou com os amigos, nada mais são do que um resgate e uma lembrança daquilo que nos move de verdade como seres humanos que somos: nos alimentamos através do contato com o outro, nos reinventamos quando nos espelhamos nas pessoas, nos religamos com nossas existências cada vez que temos a consciência do quanto somos uma importante parte deste todo. Durante os dois dias em que estive com o Roberto Maturana, em São Paulo, aprendi muita coisa nova, me senti beeem burra em muitos momentos, tamanhas metáforas da biologia que ele utiliza e, mais adiante, quando relaxei e entendi o quão simples eram suas palavras, tive a certeza de que estes e outros ensinamentos não mudam ao longo dos tempos. Somos seres em eterna evolução mas o que nos move de verdade é bem simples e básico. Por trás de tantas teorias e jeitos de enxergar o mundo, buscamos todos as mesmas respostas para perguntas bem básicas: “Gosto do meu viver?”, “Quero o querer que eu quero”, perguntou Maturana. “Estamos dispostos a soltar nossas certezas para nos transformarmos de verdade?” As respostas têm a ver com um simples resgate de nossas famílias ancestrais, seres espontaneamente amorosos que, ao compartilharem o alimento, em círculo, aprendem a doce e difícil arte de conviver. Nas empresas, mudam apenas os nomes. E o resgate é o mesmo. Se não há conversas significativas, se não há prazer em compartilhar com o outro, não há sentido naquele encontro. Tenho experimentado com alguns clientes encontros literalmente circulares com suas equipes. Algo bem simples de fazer e tão esquecido. Quando as pessoas se olham nos olhos parece que a conversa flui e algo acontece. Em casa, tenho insistido em resgatar o ritual do jantar, com mesa bem bonita e uma boa conversa presente. Pode ser um círculo de dois ou, quando vêm os amigos, maior, cheio de boas energias. Sempre tive isto na minha infância. Ponto pra minha mãe, que sem nenhuma teoria e com grande sabedoria, conduzia este grande círculo familiar. Talvez o grande aprendizado deste tal 2012 seja olharmos para trás e resgatarmos as cirandas de roda que sempre nos moveram e que roubamos de nós mesmos nas correrias da vida.