Incrível como o tempo pode ser relativo. Neste final de semana estendido eu fiz coisas que poderia ter demorado semanas pra conseguir fazer. Participei de um evento, reencontrei pessoas queridas, todas elas com histórias e contextos completamente diferentes. Matei a saudade de Porto Alegre, de chimarrão e até comi uma cuca (espécie de pão doce com cobertura). Só não deu pra ir na Feira do Livro e no Museu Iberê, que eu adoro. Quase uma terapia tirar tanta produtividade dos minutos do relógio. Estou exausta fisicamente mas com as pilhas completamente novas, cheia de ideias e novos pontos de vista. Mais surpreendente do que a relatividade do tempo é me dar conta de que eu tenho estas mesmas exatas 72 horas durante a semana e elas geralmente voam. É só piscar e o tempo de esvaiu. Líquido como o mundo de Bauman*. Dia destes eu fiquei quase seis horas com uns amigos curtindo um jantar em um restaurante exótico. Saboreamos os pratos, o ritual e degustamos a conversa demoradamente. O tempo parou. E aconteceu assim, de repente. Dois telefonemas e acertamos tudo rapidinho. A viagem deste feriado também não foi muito planejada. Como também não foram a maior parte dos encontros que acabaram acontecendo. Simplesmente eles fluíram. Sem cobranças, sem horários muito rígidos, sem a pressão de ter que fazer isto ou aquilo. Talvez este possa ser um bom truque pra ser usado. Se fizermos de conta que os ponteiros do relógio não existem, será que não teremos algum poder para multiplicar os minutos e solidificar a intensidade das nossas experiências? Boa semana.
* Zygmunt Bauman, sociólogo polonês autor de diversos livros sobre o mundo e suas relações "líquidas".
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
sábado, 13 de novembro de 2010
Papai Noel existe
Parece que o universo não queria que eu viesse pra Porto Alegre. Eu tinha comprado uma passagem bem baratinha (com milhas e pilas) pra vir ontem, sexta-feira. Isto porque eu queria participar do TEDx Porto Alegre, um evento bem bacana que eu falo logo a seguir. Aí uma reunião importante de quarta ficou para ontem de manhã em SP e eu tive que mudar meus planos. Consegui outro voo para hoje de manhã. Perderia parte do TED, mas chegaria para algumas boas palestras. Eis que nosso querido presidente da República fez a gentileza de interditar o aeroporto de São Paulo. Ele estava chegando de viagem e fez com que todos os aviões ficassem no solo esperando-o descer com sua ilustre comitiva. Quase duas horas depois, cheguei na terrinha, que nem estava tão fria assim. Alarme meteorológico falso. Almocei com pessoas queridas e fui assistir à segunda metade do Ted. Eu não sei explicar assim, tão direitinho, o que é o tal evento, mas é mais ou menos o seguinte: um monte de pessoas bacanas e que aparentemente não combinam (professores, criativos, médicos, pesquisadores, inovadores) são convidados para darem uma palestra em algum lugar do mundo. O Ted (Tecnologia, Entretenimento e Design) surgiu na Califórnia, há 25 anos,e tem o propósito de "sacudir" a plateia com ideias inovadoras, que precisam ser apresentadas em até 18 minutos e, na sequencia, compartilhadas para inspirar outras pessoas. (Ideias que merecem ser espalhadas). Pois bem, o tal Ted chegou aos pampas e a primeira edição aconteceu hoje. Foi organizada de forma independente por pessoas locais. O lugar, Teatro São Pedro, lindo, pomposo e com cheiro de arte. O evento, em contrapartida, estava bem legal mas nem tão pomposo assim. Teve algumas pisadas de bola técnicas bem importantes que, felizmente, não prejudicaram o propósito do encontro. Tá, mas o que foi falado lá? Como é? Pra que que serve? Well, acho que estas perguntas podem dar origem a mais de um post. Começando com este, com um pouco de tudo o que me provocou por lá. Assisti a palestras interessantes, intrigantes. Outras nem tanto. Falavam sobre seres humanos, pessoas, de solidariedade e do efeito da cooperação em uma série de projetos. Todos eles (os que me marcaram de fato) tinham em comum a capacidade de contar histórias. Histórias reais de suas vidas e das vidas impactadas por suas ideias. Falaram da força das redes sociais e na sua incrível capacidade mobilizadora. Falaram de ciência e arte, de educação, ideologias. Se valeu a mão toda pra vir pra cá e conferir o evento? Sim. Por vários motivos. Não mudei minha vida, mas saí incomodada com alguns temas. (Já valeu). Não consegui acompanhar todo o evento, mas peguei carona e pude degustar o seu propósito. (Matei minha curiosidade). Reencontrei pessoas queridas e uma Porto Alegre ensolarada. (Ponto pro Ted). Anotei muita coisa que vai ficar matutando na minha cabeça e pode até gerar alguma coisa útil mais adiante. (Bingo). Talvez o que mais tenha me tocado foi ter visto assim, ao vivo e a cores, um velhinho simpático de barbas brancas e roupa vermelha. Chegou no palco todo tímido e logo se soltou, contando deliciosos causos de suas andanças pelo Brasil. Eu vi. Ninguém me contou. Papai Noel existe. Mas não espalha.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Fuga em massa
Na segunda que vem teremos outro feriado. Do que é este mesmo? Ah, sim. Proclamação da República. E teria um outro só aqui pra São Paulo nos próximos dias, para "comemorar" a consciência negra. Só que este vai cair num sábado. Ufa. No primeiro ano que eu cheguei na terra da garoa, eu não tinha a menor ideia de que ele existia (o feriado). Aí eu saí na rua e achei tudo muito parado, quieto. Coisas de forasteiros desinformados. Falando em forasteiros, neste final de semana São Paulo vai ficar de novo com cara de terra de ninguém. Praticamente todo mundo que eu conheço vai debandar. Boa parte deles decidiu passar (mais) frio no Rio Grande do Sul, mais precisamente em Porto Alegre. Outros tantos foram pra praia, pro mato, pra onde Judas perdeu as botas, não importa. Um fenômeno de fuga em massa. Curioso é que boa parte dos portoalegrenses também pegaram a estrada hoje. Será que eles foram encontrar os paulistas no meio do caminho? Não sei para onde foram, mas sei que estão (estamos) todos fugindo. De que? Da rotina, do stress, de nós mesmos algumas vezes. Sair tem um simbolismo importante de resetar a máquina, respirar novos ares, reencontrar pessoas queridas. Mesmo que no retorno tenhamos trabalho represado (parece que ele continua "dando cria" mesmo nos finais de semana), que tenhamos que labutar dobrado no restinho de semana, este ritual enlouquecido de sair fora parece agradar a nós, mortais. Pra quem fica, aproveite. A cidade é inteiramente sua. Pra quem, como eu, vai voltar para os pagos, leve um agasalho, uma dose de paciência pra enfrentar os aeroportos e boas energias na bagagem. Bom feriado pra nós.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Medo de escuro
Nós crescemos com o tal mito de que no escuro é que as coisas feias acontecem. Lá vivem os monstros mais horrososos que habitam nossa imaginação. Depois que nos tornamos maiores, o escuro continua nos atormentando. Agora estão na moda os livros que falam do nosso lado sombra. Afinal, somos todos sombra e luz. E geralmente as pessoas têm o dom de colocar o dedo na ferida e nos apontar o que temos de ruim. Nós mesmos fazemos isto o tempo todo. Talvez mais que todo mundo. Ontem eu recebi de uma amiga um texto que desmistificou um pouco de tudo isto. O texto, chamado "Our deepest fear", de Marianne Williamson, fala sobre o quanto é difícil para nós aceitarmos nossa luz. Receber um elogio, saber e ficar à vontade com o que temos de melhor, deixar esta energia boa fluir sem vergonha. É na luz que as coisas se revelam de fato. Não dá pra esconder. As crianças, seres mais puros que existem, aceitam suas qualidades numa boa e sabem retribuir com generosidade um elogio sincero. Por isto são tão radiantes. Mas à medida que o tempo passa, aprendem que isto ou aquilo é feio e aí a luz vai se apagando. Reconhecer o que temos de ruim é um exercício importante. Ter medo do escuro nos ajuda a termos respeito por nós mesmos. Mas na hora de acender a luz, aí sim o bicho pega.
Reciclos
Eu já falei sobre o fim do ano e sobre o simbolismo deste tal recomeçar. Mas tem outros recomeços que estão me intrigando nos últimos tempos. Não sei quanto a você, mas eu tenho a sensação de que tem muita coisa se fechando e muitas novas acontecendo. Não só comigo, mas com várias pessoinhas ao meu redor. Um punhado delas, incluindo algumas bem próximas, está terminando relacionamentos. Separações doloridas, de comum acordo, previsíveis ou não. Muita gente. No campo profissional, muitas criaturas estão questionando o sexo dos anjos e procurando encontrar uma luz no fim do túnel, um novo desafio que ajude a brilhar o olho de novo. Fechamentos de ciclos. E tem novos ciclos começando pra um outro tanto. Tem o ciclo dos bebês. Sim, pelo menos umas dez pessoas ao meu redor tiveram ou estarão tendo bebês nos próximos tempos. Quer símbolo maior de renovação? O mais curioso é que estas pessoinhas não têm um padrão sequer parecido e algumas delas nem pensavam no assunto. Aí aconteceu. Ok, ok, antes que você pergunte, novos amores também estão na lista. Ufa. Algumas pessoas estão se permitindo e investindo. A Cecília Meireles falava que é preciso dos deixar podar para voltarmos inteiros. Acho que os rituais são fundamentais para marcar as passagens nas nossas vidas. Vivemos em ciclos. Senão a gente não aguenta. Há quem diga a doença é uma forma de purificação e que nunca saímos iguais depois de passarmos por ela. Pode fazer sentido porque retornamos mais fortes de uma vivência nova. Pelo menos mais experientes. Recomeçar dá frio na barriga. Mas nos faz crescer. O importante é voltarmos sim diferentes, mas inteiros. Senão não vale.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Caixinha de surpresas
Eu gosto de tentar surpreender as pessoas. Inventar coisas diferentes, tchucos, ligar assim, no nada. Mas gosto mais ainda quando sou surpreendida. Adoro receber flores, mimos, torpedos. A Patricia, que também trabalha comigo (e ficou morrendo de ciúmes do meu post sobre o aniversário da Helen) tem sido uma caixinha de surpresas na minha vida. Ela me mandou ontem, entre uma mensagem e outra, todas de trabalho, um texto falando sobre amizade. Me surpreendeu usando uma outra caixa, geralmente cheia de significados (ou de spams). A do e-mail. Não custou nada. Não doeu. E fez um enorme sentido pra mim. Esta coisa de caixinhas, aliás, me segue pela vida. Eu sou doida por elas e quase não tenho mais onde colocá-las em casa. E quando viajo, não tem jeito. Sempre acabo comprando mais uma. Acho que tudo começou com um dos presentes mais simples e surpreendentes que eu ganhei da minha mãe quando era bem pequena. Ela comprou uma caixinha de madeira pra mim e outra pra minha irmã. E personalizou cada uma, com figurinhas recortadas, coisas coloridas. Lembro dela toda misteriosa pela casa, se escondendo de nós para finalizar "a arte". Eu não sei que fim levou a tal caixa, mas ela ainda me acompanha em lembranças. Tenho pensado nisto. Nas caixas que espalhamos por aí na vida e no quanto elas podem impactar (positiva ou negativamente) as pessoas ao abri-las.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Almas gêmeas
Hoje é o aniversário da Helen, uma guria super competente e ruivinha que trabalha comigo. Na verdade, a Helen me entende, me aguenta. E ainda por cima é um tipo raro de mulher que não tem "piti". Pois bem, o mais curioso ainda da Helen é que ela tem uma irmã gêmea, a Ana. As duas são, como se dizia em Cachoeira, "cara de uma, fucinho da outra." E têm uma sintonia muito forte. A Ana está morando em Paris. A Helen, em Porto Alegre. Mesmo assim, tem um super cordão umbilical emotivo que as une. Muito bacana.
Pensando na Helen e na Ana, eu acabei viajando e comecei a questionar sobre as tais almas gêmeas. Será que elas existem? São muitas? Estariam em qualquer lugar do mundo? Em Paris? Eu estou cada vez mais convencida de que a tal alma gêmea, aquela que nos contam nos contos de fada, não existe. Mas tenho convicção de que as pessoas não passam pelas nossas vidas por acaso e que, quando se vão (sim, elas se vão), têm que nos deixar melhores do que éramos antes delas terem vindo. Nós, claro, também temos este importante papel. Mas é bem difícil. Eu não tenho irmã gêmea. Mas tenho belas almas que passaram pela minha vida e deram mais sentido a ela. Amigos, a própria Helen, alguns desconhecidos, família, amores. Espero que a cota não tenha se esgotado ainda. Espero que a Helen e a Ana curtam muito este 1/4 de século de vida. Boa semana.
PS: atendendo à sugestão da Sabrina Mauas, uma amiga argentina, vou tentar colocar algumas imagens junto dos textos do blog. Vamos ver como fica :)
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