Eu já tava incomodada com a tal história do tempo que se esvai, com a liquidez das relações. Aí veio o Saramago e me fez remoer ainda mais sobre o assunto. No documentário, ele falou muitas vezes sobre o tempo e a necessidade de deixarmos que as coisas amadureçam na vida. Cada coisa no seu tempo. Tem que respeitar. Por outro lado, ele apresenta o conceito de velhice como "uma perda irreparável ao acabar de cada dia". E aí, como conviver com estes dois extremos? Corremos contra o tempo o tempo todo. Para aproveitarmos as oportunidades, para vivermos a vida e não deixarmos que ela nos engula. O trânsito come nosso tempo, a agenda também. E aí queremos encontrar os amigos, sermos bons profissionais, filhos, amantes e ainda termos tempo para fazer ginástica e ler bons livros "calmamente" à noite. Ui. Complicado, não? Eu tenho marcado e desmarcado vários cafés e almoços com pessoas queridas. Hoje é um destes dias. Tenho um almoço encantado agendado com uma amiga e que hoje, aos trancos e barrancos, vai acontecer. Tô ainda gripada, meio branca, apagada. Mas vou encontrá-la. Agora é quase uma questão de honra. Saramago falou também que vida é agitação, atividade, movimento. Pilar comentou que "hay de desdramatizar". Ok, então. Vamos à vida. Simone, hoje, quase um mês depois, vamos comemorar o teu aniversário :)
terça-feira, 23 de novembro de 2010
domingo, 21 de novembro de 2010
High Touch
Tenho tido a oportunidade de conhecer / explorar lugares bem diferentes e bacanas em São Paulo. São lojas-conceito, restaurantes temáticos, espaços lúdicos nas mais diversas áreas. Obviamente, não consumo em cada um deles, até porque a fatura seria alta, mas tenho disposição e curiosidade suficientes para espiar o que acontece nestes recantos por aí afora. Em comum, todos eles têm um toque de high touch. Eu explico. Este conceito eu incorporei de José Carlos Teixeira Moreira, uma figura brilhante que me acolheu na terra da garoa e que tem sempre pontos de vista curiosos sobre as coisas. Ele fala que é preciso mesclar o high tech com o high touch, ou seja, que mesmo com o auge da tecnologia, não podemos esquecer das coisas simples, que são as que verdadeiramente tocam. São os detalhes, os cheiros, as experiências, enfim. Quando saímos de casa para jantar, não estamos buscando somente um prato gostoso para saciar nossa fome. Buscamos contextos, ambientes prazeirosos que nos propiciem experiências únicas. Cada vez mais, as lojas vendem menos produtos. Elas oferecem sensações. Nas livrarias, as pessoas podem passar uma tarde inteira "saboreando" um livro sem gastar um tostão. Nos cafés, da mesma forma. Pode-se pedir um expresso e ficar uma tarde toda lendo revistas ou conectado à internet sem que ninguém venha nos importunar. O curioso é que este tal espaço aconchegante que buscamos "lá fora" tem muito a ver com o casulo que buscamos dentro de nós, em nossas memórias de infância, ao revivermos cenas e sensações que nos marcaram. Dentro de uma onda de "menos é mais", o luxo pelo luxo começa a dar espaço para o que é realmente autêntico e simples. Chegamos no auge do tech. Agora nossa sede é de experiências e sensações.
sábado, 20 de novembro de 2010
José e Pilar
Eu tinha escutado pouco sobre a tal Pilar na vida do Saramago. Na verdade, eu também tinha interagido pouco com ele e sua obra até bem pouco tempo atrás. Mas quando eu fui apresentada àquela linguagem, muita coisa mudou. Hoje, depois de assistir ao documentário "José e Pilar", mais coisas mudaram. Segundo o Saramago, ele era uma pessoa desassossegada com a missão de desassossegar as pessoas. Bueno. Conseguiu. O filme mostra basicamente a relação dele com a Pilar nos seus últimos anos de vida. Nada de roteiros elaborados, cenas mirabolantes. Retrata uma rotina de um casal apaixonado, idealista, inquieto. Existiu um Saramago antes e depois da Pilar. E isto ele deixa claro o tempo todo. Ela, uma mulher forte, jornalista, sabia o que queria quando o abordou e disse que queria conhecê-lo melhor. Ela o admirava. E a partir daquele dia, ele passou a admirá-la. Tiveram 20 e poucos anos intensos juntos. Ele começou a escrever comercialmente depois dos sessenta e tinha uma consciência absurda da urgência em colocar para fora suas palavras. E Pilar representou, durante este tempo todo, a energia vital que o fez viver e se expressar com tanta intensidade. Saramago tinha senso de humor, convicções, mas era sereno e paciente. Pilar, por sua vez, transpirava força e garra. Segundo ela, é preciso "desdramatizar" a vida. E foi assim que a mistura destes ingredientes tão intrigantes deu origem a obras tão notáveis. "A viagem do elefante" foi a última delas, escrita com muitas pausas (Saramago adoeceu durante o "percurso"). Na verdade, Pilar e o elefante foram fundamentais para que Saramago vivesse mais algum tempo, período este em que ele pode amadurecer e curtir boa parte do que criou. Saramago morreu mas não sei foi. Ele não teve filhos. Mas teve Pilar e uma história de amor que não está nos livros. E que se perpetua em todas as dedicatórias que fez em cada uma de suas obras. E também na fundação que leva seu nome e que hoje, claro, é tocada por esta mulher vibrante que mudou sua vida. Sem Pilar, Saramago teria sido outro. Assim como somos novas pessoas quando encontramos pelo caminho pessoas que têm a coragem de nos desassossegar.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
3 "efes"
O nome dele é Fernando Fortes Félix de Oliveira. Quase nome de rei. Tem os 3 "efes" pra mostrar que é filhote da mamãe (e que também é forte) e do papai (Félix, viril). Mas que também tem personalidade própria, ora bolas. Este apelido de 3 "efes" foi dado pelo José Abel, capataz da fazenda e um dos tantos que sempre admiraram e cuidaram do pequeno caçula da família. Ele também teve outros apelidos ao longo da vida. Tio Nando, Mano, Mufa (tem gente que até hoje não sabe que o Mufa é o Fernando). Nunca teve apelidos diminutivos, tipo Fernandinho. Parece que não combinam com ele. Pra mim, ele é o mano. Simples assim. Um guri querido, educado e idealista. Demorou pra cair a ficha do mano sobre o mundo. Demorou pra ele se encontrar. Sempre culto, criativo, inteligente, ele viveu uma adolescência estendida. Curtiu a vida, Cachoeira, os amigos, até que foi parar na capital e despertou de verdade para um monte de coisas. O guri, que já era o orgulho da D. Irma, tornou-se referência para um monte de gente. Parece que ligaram a criatura na tomada. Pior, além disto, ele está cada dia mais bonito e charmoso. Minhas amigas que o digam. Está bonito porque está feliz, se realizando, conquistando coisas novas. Parece que os e "efes" ficaram pequenos demais pra tudo o que o Fernando tem escrito por aí. Ele é o Fernando, é Forte e é Félix, mas é também batalhador, amoroso, sensível (ele chorou no show do Paul, que querido) amigo leal, roqueiro, sonhador. Hoje o Mano tá de aniversário. Tá completando a idade de Cristo. Estamos distantes fisicamente, mas parece que nunca estivemos tão próximos. Talvez porque estejamos vivendo novos momentos em nossas vidas. Talvez porque tenhamos muitos objetivos em comum na vida. Ou simplesmente porque somos frutas do mesmo pé, buscando nosso lugar ao sol. Tenho muito orgulho de ti, guri. Te amo! Feliz Aniversário!
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Cof cof
Uma vez alguém me disse que sempre saímos melhores de uma gripe. Segundo esta mesma pessoa, depois dela nosso sistema imunológico fica mais forte e acabamos aprendendo com a experiência. Nem que seja aprender a ficar quieto, algo não muito fácil para pessoas ativas como eu. A gripe é como um castigo pra quem não se comportou e pensou que era super heroi. Ela vem pra te lembrar que és mortal. Mas ninguém gosta de ficar "amolado", com febre e dor no corpo. Por coincidência ou não, na semana que passou várias pessoas perto de mim estão resfriadas, com sinusite, rinite e outras tantas "ites" da vida. Seria por causa do tempo louco? Ou pela falta de tempo para nós mesmos? Uma outra pessoa igualmente esclarecida sempre me fala que, na vida, se não vai no amor, vai na dor. Se está faltando pilha pra você também, sugiro que beba muita água, respire e durma direito. Eu não segui muito bem as recomendações.E comigo não foi no amor. Cof cof.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Pequenos aprendizes
Tenho ficado cada dia mais impressionada com a "performance" dos pequenos diante da vida. Qualquer um de nós que tenha alguma criança por perto sabe que elas nasceram com um chip diferente. Elas são digitais, inquietas, multidisciplinares, ativas, comunicativas, curiosas, rápidas e muito sinceras. Dão nó nos adultos com suas perguntas e percepções. E têm um entendimento bem claro sobre o mundo e as pessoas. Dia destes a filha de uma amiga minha comentou, ao ver a torneira aberta: "se não fechar a torneira, a água do planeta vai acabar". Um tema amplamente abordado durante o TEDx Porto Alegre, que eu assisti no último sábado, foi justamente a questão da educação. Melhor, falavam sobre a necessidade de descomplicar / reinventar a forma de educar. Nossos raciocínios lineares e quadrados dos tempos da escola simplesmente não conectam-se com o mundo da chamada "geração indigo". Mesmo assim, grande parte das escolas ainda utiliza métodos antigos de ensino. O aluno, pobre ET no meio de tanta complexidade, ainda por cima é considerado desinteressado ou hiperativo. Talvez o desinteresse seja ainda mais profundo e tenha uma outra origem. Criar pessoas interessadas, críticas e questionadoras dá trabalho. Na escola e na vida. Trabalhar com pessoas que pensam diferente é rico. Mas cansa, exige demais da gente. Inserir a geração Y na equipe é super cool. Mas não vem com tecla Sap. Ter uma população esclarecida significa dar margem para que ela questione políticas públicas e tire muita gente da zona de conforto. Ainda dentro do Ted, fui apresentada a uma ONG que utiliza redes sociais como forma de mobilização popular. Numa ação para ajudar a Birmânia, um dos países mais fechados do mundo, eles conseguiram mobilizar virtualmente tanta gente que superaram as doações da Itália. Eles também estão super engajados no "Ficha Limpa". São novos aprendizes diante de novos fatos que surgem no mundo. Utilizam outros meios para comunicarem-se e têm a batida do novo século. O X da questão é nos questionarmos sobre o quanto estamos dispostos a pegar carona neste trem-bala. Teremos paciência para nos reinventar diante dos questionamentos dos nossos filhos? Teremos força para lutar contra barbaridades que vimos por aí? Conseguimos nos desapegar do passado e reinventá-lo dentro de novos contextos? Estamos dispostos a "aprender" com as crianças? Na teoria, tudo é lindo. Mas na hora que o bicho pega, acabamos nós como crianças assustadas, escondidos debaixo da cama, agarrados na velha taboada.
*Ah. O nome da tal Ong é Avaaz (www.avaaz.org)
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Tempo líquido
Incrível como o tempo pode ser relativo. Neste final de semana estendido eu fiz coisas que poderia ter demorado semanas pra conseguir fazer. Participei de um evento, reencontrei pessoas queridas, todas elas com histórias e contextos completamente diferentes. Matei a saudade de Porto Alegre, de chimarrão e até comi uma cuca (espécie de pão doce com cobertura). Só não deu pra ir na Feira do Livro e no Museu Iberê, que eu adoro. Quase uma terapia tirar tanta produtividade dos minutos do relógio. Estou exausta fisicamente mas com as pilhas completamente novas, cheia de ideias e novos pontos de vista. Mais surpreendente do que a relatividade do tempo é me dar conta de que eu tenho estas mesmas exatas 72 horas durante a semana e elas geralmente voam. É só piscar e o tempo de esvaiu. Líquido como o mundo de Bauman*. Dia destes eu fiquei quase seis horas com uns amigos curtindo um jantar em um restaurante exótico. Saboreamos os pratos, o ritual e degustamos a conversa demoradamente. O tempo parou. E aconteceu assim, de repente. Dois telefonemas e acertamos tudo rapidinho. A viagem deste feriado também não foi muito planejada. Como também não foram a maior parte dos encontros que acabaram acontecendo. Simplesmente eles fluíram. Sem cobranças, sem horários muito rígidos, sem a pressão de ter que fazer isto ou aquilo. Talvez este possa ser um bom truque pra ser usado. Se fizermos de conta que os ponteiros do relógio não existem, será que não teremos algum poder para multiplicar os minutos e solidificar a intensidade das nossas experiências? Boa semana.
* Zygmunt Bauman, sociólogo polonês autor de diversos livros sobre o mundo e suas relações "líquidas".
* Zygmunt Bauman, sociólogo polonês autor de diversos livros sobre o mundo e suas relações "líquidas".
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